Especialistas explicam especificidades e como esses sentimentos podem se encontrar em algum ponto ou se transformar
Ana Clara Oliveira e Malu Pinho
*Publicada em dezembro de 2022
Coração palpitando, ansiedade, “borboletas” no estômago e a expectativa de algo novo… Passamos a nossa vida idealizando, ouvindo músicas, lendo livros e fanfics, assistindo filmes sobre a ideia do amor e da paixão. Muitas vezes as pessoas se colocam no lugar dos personagens, nós nos identificamos, pois passamos o mesmo em nossas experiências pessoais e começamos a questionar muitas vezes sobre o sentir.
Essas duas palavras possuem conceitos diferentes, e ao mesmo tempo confundem os sentimentos humanos. Socialmente conhecemos paixão como puro desejo sexual e carnal, amor como algo mais profundo, que vai além do físico. As diferentes gerações, de acordo com o meio em que viveram, possuem diferentes visões sobre o que significa cada um. Mas quem nunca se perguntou a diferença entre desejo e amor? E se em algum momento estes sentimentos e sensações se sobrepõem e se transformam?
Pinterest images. Foto: conta @thesillyyogourt
A paixão processa experiências como algo prazeroso e o amor processa outra parte associada ao vício. É o que já apontou estudos realizados, como da Universidade de Concordia, em Montreal, no Canadá, que o amor e a paixão são interpretados pelo cérebro de maneiras distintas e por diferentes partes da mesma área do cérebro (o córtex insular que influencia as emoções e o corpo estriado). Esta pesquisa foi abordada em uma reportagem do jornal “Galileu”, de 24 de julho de 2014.
Porém, essas experiências podem se sobrepor em alguma parte: o desejo pode se transformar em amor e estes sentimentos não são totalmente opostos. A partir destas informações podemos entender certos eventos: como amor à primeira vista, criação de laços muito profundos e como o amor se constrói a partir de uma paixão.
Os estudantes Maria Antônia Amado Lima e João Henrique Oliveira, ambos de 22 anos, falam sobre a existência das diferenças entre estes sentimentos tal qual. Maria Antônia, moradora de Salvador, acredita que os sentimentos são diferentes e que o amor é uma escolha que deve ser pensada de maneira racional:
“Acredito que são diferentes. Já vivi uma paixão que se tornou amor, e enquanto a paixão é movida pela emoção e por impulsos que parecem até irracionais, o amor é uma escolha que deve ser racionalmente planejada, precisa de atenção programada e manutenção constante. Acredito que se apaixonar é mais fácil que amar, porque o amor demanda ainda mais responsabilidade e amadurecimento”, avaliou Maria Antônia Amado Lima.
Maria Antônia Amado Lima, imagem do dia 23 de novembro de 2022. Foto: Acervo pessoal.
João Henrique, morador de Feira de Santana, assim como Maria, explica que estes sentimentos são diferentes e para cada um existe um tipo de experiência:
“Relacionado ao amor, foi algo intenso e extremamente bom. Me fazia bem e feliz, adorava estar com a pessoa a todo tempo, era algo que mexia comigo e me deixava numa “dependência” boa em relação a ela. Algo que de verdade mexeu comigo e acho difícil ter de novo por ter uma barreira emocional depois de certos acontecimentos”, disse João Henrique.
João Henrique Oliveira, imagem do dia 23 de novembro de 2022. Foto: Acervo pessoal.
Já paixão, João Henrique destaca como algo mais “passageiro”. “Eu simplesmente tive afinidades pelas pessoas pelas quais tive paixão e foi longe do amor que já tive, algo mais vazio e que certas horas me alegra e certas horas me deixa em dúvida se estou fazendo a escolha certa. Eu basicamente não curto muito a vibe de paixão por me manter sempre em dúvida e geralmente me causando arrependimentos e afetando um pouco minha autoconfiança.”
Para a farmacêutica Erika de Jesus Souza, de 34 anos, moradora de Feira de Santana, essas diferenças existem e ela viveu muitas sensações ao se apaixonar como também amar. Ela frisa que estes sentimentos podem ser transformados.
“Na minha concepção amor e paixão são sentimentos distintos. A paixão é intensa, independe da razão, da lógica, é um sentimento que nos tira do foco, toma conta de nós como uma grande explosão. Por isso mesmo é também efêmera e passageira. O amor ao contrário da turbulência da paixão se traduz como calmaria, constância e o mais importante: surge e se fortalece pelos laços criados, pelo que foi vivido e construído numa relação. Assim, é bem verdade que a paixão pode se transformar em amor, mas acredito que quando a paixão vem de forma muito avassaladora quase sempre vai embora com a mesma rapidez com que chegou”, contou Erika Souza.
Erika de Jesus Souza, imagem do dia 27 de novembro de 2022. Foto: Acervo Pessoal
Erika Santos contou que já viveu a paixão que apareceu tão rapidamente, de forma inesperada, por alguém que não fazia sentido estar apaixonada.
“E com o tempo o sentimento se dissolveu e deixou de existir, chegando ao ponto de eu olhar para trás e tentar entender como foi possível que isso acontecesse, uma vez que depois que esse sentimento passa fica difícil até explicar como ele foi capaz de existir. Já vivi a paixão que aos poucos cedeu lugar para o amor. E com certeza esse é o terreno onde gosto mais de pisar, é maravilhoso estar apaixonado, mas é bem verdade que só quando a paixão cessa é que temos mais certeza do que realmente queremos. Saindo do sentido romântico, paixão é o que nos motiva, é o sentimento que faz a nossa dedicação a algo ou alguma coisa valer a pena. Com certeza sem amor e paixão nada seria tão interessante e a vida não teria o mesmo encanto”, explicou Erika Santos.
A professora Marcia Regina Pinho, 49 anos, pontua algumas características da paixão e como esta pode evoluir para o amor. Também de acordo com suas vivências:
“Para mim a paixão é algo intenso e que nos arrebata de primeira, é mais uma projeção que fazemos do(a)/no(a) outro(a). Mas não significa que não possa evoluir para o amor, que é conhecimento da outra pessoa, é um sentimento que cresce baseado no respeito e admiração a cada dia que passa e se convive, um querer estar junto mas respeitando a individualidade de cada um. As minhas experiências foram exatamente assim. Me apaixonei algumas vezes, e amei também – a minha crença e a opinião que tenho foram baseados nas minhas vivências”, enfatizou Marcia Pinho.
Marcia Regina Pinho, imagem do dia 27 de novembro de 2022. Foto: Arquivo Pesssoal
A psicóloga Bianca Macedo afirma existirem diferentes tipos de amor, paixão e fala sobre como ocorre essa transformação de sentimentos: “Existe amor na família, amor na amizade, amor no trabalho, amor por ídolo, amor por bem material, amor por lugares, amor por comida específica, amor por pet, amor no relacionamento amoroso, entre outros. Em cada uma dessas situações, a forma como o sujeito demonstra e sente amor é diferente; ele não vai, por exemplo, amar um cônjuge da mesma forma que ama um amigo. Digo isso porque além de serem pessoas diferentes, são formas de se relacionar diferentes, o que envolve níveis de envolvimento também diferentes”.
Uma pessoa considerada como amiga ou melhor amiga demanda de um amor sem tesão, sem desejo sexual, segundo a psicóloga, um amor quase de irmão a depender do nível da amizade. “Já um relacionamento amoroso entre duas ou três pessoas (a depender da forma como cada um escolhe estabelecer uma relação) envolve questões sexuais, desejo carnal. A mesma coisa acontece com a paixão: há pessoas que se apaixonam várias vezes no ano por pessoas diferentes, enquanto há quem se apaixone pela mesma pessoa o ano inteiro. Isso pode depender também do nível de envolvimento entre os pares, de como essa relação é estabelecida e como isso se dá no dia a dia, se há companheirismo, parceria, alegria.”
Psicóloga Bianca Macedo, imagem do dia 18 de novembro de 2022. Foto: Acervo Pessoal.
Bianca Macedo explica que é importante considerar que o que uma pessoa aprende em casa e na sua criação sobre o amor será levado pra vida toda.
“Um amor vivido por seus pais de forma conturbada, limitada, marcado por algum tipo de violência e/ou negligência, pode vir a ser um ensinamento aos seus filhos de que eles merecem pouco e não são tão dignos de amor/afeto. Já um lar em que a relação entre dois pais, duas mães, um pai e uma mãe, se dá de maneira saudável, livre, através do diálogo, parceria, compreensão e, claro, muito amor, é um reflexo daquilo que pode ser considerado uma base para relacionamentos futuros de seus filhos. Ou seja, levamos muito de casa e da relação entre nossos pais/deles conosco”, explicou Bianca Macedo.
A psicóloga também pontua que esses sentimentos podem se sobrepor, visto que tudo é mutável e depende da forma como a relação acontece.
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