Práticas ancestrais de cura através das folhas ressignificam o que entendemos como ciência e tecnologia
Por Artur Silva, Gabriele Oliveira, Karoline Sacramento e Larissa Novaes
Imagem: Yeye Kintê – Acervo pessoal
Quem nunca ouviu depois de se queixar de um cansaço que precisava se benzer? Benzimento e rezas são tão comuns no cotidiano brasileiro que, independente da religião, todo mundo recorre e confia. Essas são práticas tradicionais de cura, também conhecidas como Medicina Ancestral, representam um valioso e resiliente conjunto de saberes que unem o cuidado com o corpo físico e a dimensão espiritual. Centrado no uso de folhas, ervas e elementos naturais, esse sistema de conhecimento é um pilar fundamental em comunidades tradicionais, especialmente nas de matriz africana, onde a manipulação ritualística das ervas é supervisionada por divindades como Orixá Ọ̀sányin.
Mais do que um recurso religioso, o uso das folhas e o benzimento são percebidos por seus adeptos como uma primeira linha de socorro capaz de promover a cura do corpo e da alma, que atravessa toda uma sociedade, de pessoas céticas aos religiosos, todas tiveram contato com as rezas em suas vidas.
CURA ATRAVÉS DAS FOLHAS
As práticas com elementos ligados à natureza compõem o conjunto de saberes associados aos cuidados com o corpo físico e espiritual das comunidades tradicionais. Diante das vivências nesses espaços, esses hábitos assumem um lugar de destaque, atuando em conjunto com as orientações médicas.
Nas comunidades de matriz africana, a exemplo dos terreiros de Candomblé, o uso das ervas pode ser percebido na grande maioria dos rituais, tendo como os representantes espirituais desse universo o Orixá Ọ̀sányin, o Nkisi Katendê e o Vodun Agué, divindades africanas guardiões das florestas e das folhas.
Imagem: Iyalorixá Nadira – Acervo pessoal
Segundo a Iyalorixá Nadira Maria, sacerdotisa do Ilê Asé Oyá Lassè, no universo litúrgico do Candomblé, cada Orixá possui uma folha consagrada ao seu culto e cada folha possui uma cantiga que desperta a sua energia, sendo usadas em momentos fundamentais para as práticas. A sacerdotisa afirma que “antes daquele Orixá receber sua oferenda a gente lava ele com sua determinada folha, pra que tudo ocorra bem e ele abençoe todos os seus filhos.”
Nas religiões de matriz africana, seus adeptos atribuem o uso das ervas a uma função que ultrapassa o universo religioso, unindo os saberes espirituais às necessidades do corpo físico. “Claro que a folha cura! Essa cura é espiritual mas também é do corpo físico, a folha usada do jeito certo, cura tudo.”
Ìyá Nadira frisa que nem todas as pessoas podem realizar determinados rituais com folhas. “Existe dentro dos terreiros pessoas específicas preparadas para essas funções, quem tem experiência e idade de santo adequada para aquilo”. De acordo com a Iyalorixá, esse conhecimento é necessário para que não ocorra nenhuma divergência no uso das ervas. “Nem sempre a mesma folha serve pra todo mundo, depende do que está precisando, da função daquela folha e às vezes depende até do seu Orixá.”
Para os candomblecistas, o axé das ervas sagradas é invocado dentro dos terreiros, mas essa energia ultrapassa o campo espiritual e desempenha influência no dia a dia. Mãe Nadira diz que nem todos os rituais que desenvolve no Ilê Asé Oyá Lassè podem ser feitos nas casas de seus filhos de santo, mas “aquela energia das ervas, aquele alívio do corpo e da alma vai com eles independente deles estarem no terreiro ou não.”
USO DAS FOLHAS PARA MANUTENÇÃO DA EXISTÊNCIA
Imagem: Mona Soares – Acervo Pessoal
Para Mona Soares, benzedeira e farmacêutica, “benzer significa abençoar!”. Ela compreende que a prática auxilia na resolução das questões pessoais, através da energia que é direcionada à pessoa. Mona identifica que há interesse em seu trabalho por pessoas de todas as crenças e até pelas céticas que “retornam, falando de leveza depois do processo”.
O benzer, para muitos brasileiros é o primeiro socorro. Juliana dos Santos Conceição (29), atua como analista hospitalar e afirma que o benzimento sempre esteve presente em sua vida, pois seus mais velhos recorriam quando algo acontecia. “Sempre que adoecia a gente procurava primeiro uma rezadeira”, antes mesmo de um médico, recorrer a uma benzedeira sempre fez mais sentido para a família de Juliana e de muitos brasileiros. Já mais velha, ela continua procurando por uma reza em caso de mal estar ou doença, e recomenda para as pessoas próximas.
Esses saberes estão presentes na vida das pessoas desde sempre, Mona, assim como Juliana, tiveram contato com rezas, benzedeiras, plantas e chás. No entanto, ela foi por um caminho diferente. Inicialmente, fez faculdade de farmácia na intenção de unir saberes científicos e espirituais. Depois de trabalhar por um tempo com cosméticos naturais, começou a benzer pessoas próximas, até que se tornou sua profissão. Sua trajetória representa um compromisso com a manutenção de uma tecnologia ancestral de cuidado.
Pensando na manutenção, Mona considera que a simplicidade é o principal saber que o benzimento transmite, já que a ideia de que para fazer o bem e entregar uma boa energia a alguém, não “demanda uma grande estrutura para acontecer”. Além de que, a crença é permanência no tempo. Porém, é importante destacar que há um imaginário muito específico sobre a imagem das pessoas que benzem. “É um romantismo essa coisa da benzedeira ser uma senhorinha, numa casinha simples.” Com isso, Mona se coloca como uma benzedeira da cidade que começou na função também pelo desaparecimento das benzedeiras.
Por mais que, como ela diz, seja uma imagem romântica, muitas senhoras que benziam acabaram falecendo e levando consigo as tradições. A questão geracional é crucial nessa situação porque as pessoas mais novas nem sempre levam a prática a frente. Não veem como uma profissão, por isso Mona atesta que cobra pelo trabalho e defende que isso seja feito. “Cobrar mantém a vida da benzedeira e pode inspirar outras pessoas para ter aquilo como profissão.”, por ser uma prática que exige bastante da pessoa que desempenha, precisa haver essa manutenção financeira para que o saber continue presente e não se torne uma lenda, “nada mais justo receber por aquilo que que foi herdado, pra que continue sendo passado adiante”.
TECNOLOGIA DE CURA ANCESTRAL
Apesar de sua origem ligada ao sagrado, muitas dessas práticas passaram, com o tempo, a ser estudadas pela ciência, que hoje reconhece efeitos, benefícios e impactos que antes eram tratados apenas como crença. Ainda assim, esse reconhecimento científico não garante que esses saberes ocupem o mesmo espaço de legitimidade de outras ciências. As tecnologias de cura ancestral seguem sendo, patrimônio cultural e espiritual. Dentro das comunidades tradicionais, curar nunca foi apenas tratar o corpo: é recompor o espírito, fortalecer a energia vital, equilibrar o que está dentro e o que está fora.
Estudos vêm comprovando efeitos terapêuticos de diversas ervas, reconhecendo impactos no corpo físico, emocional e energético. Pesquisas em fitoterapia, que é o campo que estuda e utiliza plantas medicinais para prevenir ou tratar doenças. Ela investiga substâncias ativas presentes nas plantas, por exemplo, já demonstram a ação anti-inflamatória da erva-doce, o potencial ansiolítico da camomila e o efeito cicatrizante da babosa, enquanto a etnofarmacologia, que pesquisa como diferentes povos e culturas usam plantas, fungos e outros recursos naturais com fins medicinais, espirituais ou rituais.
Investiga como comunidades tradicionais utilizam plantas medicinais e de que forma esses usos dialogam com princípios químicos identificados em laboratório. Universidades e Institutos brasileiros, como UFBA, IFPE e UFMG, também têm ampliado o campo da etnobotânica, estudando as relações entre povos tradicionais e o uso ritual, espiritual e terapêutico das plantas.
As tecnologias ancestrais de cura não precisam da validação acadêmica para se legitimar. Elas existem muito antes da ciência moderna, porque nascem da experiência cotidiana, da observação da natureza e da sabedoria transmitida por gerações. A cura ancestral se fortalece na coletividade: ela é passada de mãe para filhos, de benzedeira para aprendiz. É um conhecimento que se transmite no gesto, no toque, na folha escolhida, no canto entoado. E justamente por ser vivido e compartilhado na prática cotidiana, seu valor não depende de instituições.
Nesse cenário, figuras como Yeye Kintê desempenham papel fundamental na preservação e valorização desses conhecimentos. Sacerdotisa de Orisá, benzedeira, escritora, jornalista, é herdeira dos ensinamentos transmitidos pelas mulheres de sua família, responsáveis por manter práticas de cura que atravessam séculos. Sua atuação une prática, reflexão e escrita, aproximando a sabedoria tradicional dos debates contemporâneos sobre saúde, território, ancestralidade e direitos culturais. Recentemente, Yeye Kintê lançou, ao lado de sua mãe Sueli Kintê, o livro “Fé nas Folhas”.
A obra celebra as tecnologias ancestrais de cura por meio dos elementos naturais que compõem os rituais. O livro reconhece a força espiritual presente na natureza, a partir da apresentação dos usos e significados das práticas. Ao registrar esses conhecimentos, elas transformam o que sempre foi oralidade em escrita, garantindo que as próximas gerações tenham acesso a um repertório que, resistiu à perseguição, ao apagamento e ao preconceito.
A cura ancestral, presente no poder das folhas e na simplicidade do benzimento, vai além de uma simples crença e se afirma como um patrimônio cultural e espiritual sustentado pela vivência e pela resistência ao longo do tempo. Embora a ciência moderna venha, aos poucos, reconhecendo os efeitos terapêuticos de muitas ervas por meio de estudos em áreas como a fitoterapia, a etnofarmacologia e a etnobotânica, a legitimidade dessas práticas nasce, antes de tudo, da observação da natureza, do campo do sagrado e da transmissão do conhecimento entre gerações.
São saberes construídos no cotidiano das comunidades, reafirmados pela experiência e mantidos vivos pela prática compartilhada. A cura ancestral, presente no poder das folhas e na sutileza do benzimento, vai além da ideia de simples crença e pode ser compreendida como uma tecnologia, ou seja, um conjunto de práticas, técnicas e conhecimentos capazes de produzir efeitos reais no cotidiano das pessoas.
Quando nos referimos à tecnologia ancestral, falamos de saberes elaborados por comunidades ao longo de muitas gerações, fundamentados na observação atenta da natureza, na repetição da experiência e na transmissão oral contínua. São tecnologias porque englobam modos de fazer, seleção de materiais, rituais específicos, formas de preparo e princípios de cuidado que estruturam e sustentam a vida. Figuras como benzedeiras e sacerdotisas desempenham um papel crucial na manutenção e transmissão desse saber, defendendo, inclusive, a remuneração pelo trabalho para garantir que essa tecnologia não desapareça.
Portanto, documentar esses saberes é um ato político de preservação cultural. Em um país marcado pela violência contra povos tradicionais, registrar a cura ancestral é afirmar que essas práticas são patrimônio vivo. Significa dizer que existe ciência no corpo, na folha, no gesto e na palavra, assegura que a memória não se perca, que as práticas continuem sendo transmitidas e que o valor espiritual e comunitário dessas tecnologias seja reconhecido como parte fundamental da história e identidade brasileira.
RECEITA DE YEYE KINTÊ
BANHO PARA TIRAR OLHO GROSSO
● Folha de limão
● Folha de cana de macaco
● Folha da fortuna
● Folha de colônia
Macere as ervas na água até soltarem o sumo, após isso, tome o banho da cabeça aos pés.
Durante todo o processo vá emanando boas energias.
Imagem: Mona Soares – Acervo Pessoal




