Por Toni Caldas
Existe um dito popular que afirma que a mais antiga profissão do mundo seria a prostituição. Mas por mais que seja vista na atualidade como um ofício, o histórico da vida das meretrizes nunca foi isento de preconceitos, agressões, violência e marginalização.
Em meio ao século XIX, viajantes que vinham do sertão baiano através da ferrovia aguardavam em diversos hotéis, bares e restaurantes de Cachoeira a chegada do antigo Vapor, para, assim, continuar viagem até o porto da capital baiana. Com esse intenso fluxo, o aquecimento da zona meretrícia local então se inicia.
Ao longo de todo o cais era comum a presença de moradores de rua, vagabundos, magarefes, falsos babalorixás, comerciantes e também muitas prostitutas, que ocupavam as estreitas e perigosas ruas, formando um palco de epidemias e prazeres que atendia aos necessitados de companhia. Salões de jogos de azar, bares famosos pela boemia, sobrados inteiros utilizados como prostíbulos, constituíam a dinâmica noturna do porto de Cachoeira.
Segundo o historiador Cacau Nascimento, a prática meretrícia vem desde os tempos áureos da cidade. Muitas prostitutas vinham do sertão, e raras eram as mulheres nativas da cidade. “Embora tivesse um grande fluxo comercial, São Félix nunca teve zonas de prostituição; já Cachoeira, uma cidade hoteleira e boêmia, manteve até cerca de sessenta anos uma tradição muito forte neste sentido”, conta.
O historiador ainda complementa: “Para se ter noção, a iniciação sexual dos jovens era realizada nesses ambientes, onde belas mulheres atraiam inclusive homens de cidades vizinhas. Com a banalização do sexo, essa prática hoje deixou de existir.”

Resquício dos prostíbulos
Entre as décadas de 1940 e 1950, com o crescimento urbano da cidade, as zonas meretrícias foram perdendo sua característica original.
“Todos esses becos que vão em direção ao porto, antes eram ocupados por sobrados alugados para a prática da prostituição. A partir de 1960, a zona portuária ganhou, então, o caráter de espaço residencial, sendo ocupada por famílias inteiras”, diz Cacau.
Atualmente, apenas o último quarteirão do porto, conhecido pelos moradores mais antigos como “beco das ganhadeiras”, permanece como zona meretrícia à disposição de clientes em busca de romances de aluguel.
Por conta da sua carga histórica e dos conflitos gerados nas discussões de gênero dentro da própria cidade, o jornalista Jadson Ribeiro, em seu estudo intitulado “Corpos Periféricos”, se dispõe a observar as apresentações dos corpos no cotidiano das prostitutas ainda atuantes em Cachoeira. “Nesse trabalho eu busquei tratar da sexualidade, da estética do corpo, com o anseio de entender melhor como se dão os processos performáticos e as vivências sexo-afetivas dessas mulheres”, diz Jadson.
O significado do “brega”
A origem do termo “brega” é desconhecida e bastante discutida. Uma hipótese é que venha dos prostíbulos nordestinos em que esse tipo de música era usado para embalar os romances de aluguel. Aventa-se que o termo derive do “Nóbrega” da Rua Manuel da Nóbrega, em Salvador – rua esta que ficava numa região de meretrício da capital baiana.
Outra origem provável para a palavra brega seria originária do Rio de Janeiro, como uma corruptela da gíria “breguete”, palavra pejorativa e preconceituosa, usada pela classe média para designar empregadas domésticas e que, por extensão, passou a designar também seu gosto característico de origem popular.
Por fim, conversando com um dos mais antigos frequentadores do estabelecimento de Dona Cabeluda, como é conhecida a proprietária de um dos mais tradicionais bordéis de Cachoeira, pode-se compreender como os clientes do local apreciam a vida regada a prazeres e luxúria.
“Brega não quer dizer sacanagem, nunca significou isso. É um estilo, uma filosofia que eu, cliente de carteirinha, não deixo de viver mesmo, hoje, sendo casado”, analisa profundamente Jonathan, que dizia naquela noite ter vindo apenas beber algumas cervejas, pois a companhia da noite anterior o deixou totalmente inválido.
