Coordenadora da Educação para a Diversidade da cidade heroica mostra como padrão europeu na cidade heroica impacta sobre a experiência afetiva e profissional das pretas
Tamile Conceição da Silva
*Publicado em dezembro de 2022
Sandra Liss, Coordenadora da Educação para a Diversidade do Município de Cachoeira, fala de como a cor influência na forma de se relacionar Foto: Arquivo pessoal
“Quanto mais preta, mais a probabilidade de passar pela solidão da mulher negra.” É que afirma Sandra Liss, 40 anos e coordenadora da Educação para a Diversidade do Município de Cachoeira, que destacou a carência da mulher preta abordando como a sociedade no recôncavo da Bahia influencia na vida dessas mulheres.
Ela toma como exemplo sua experiência afetiva e profissional. “Eu percebo na cidade de Cachoeira que algumas mulheres elas não se percebem em alguns lugares, e sim quando elas alcança ela sempre tem essa rejeição da sociedade e queira quer não, a gente não quer encontrar uma sociedade, a gente precisa, mais a gente não quer, todo mundo quer ser aceito socialmente então a gente fica naquele embate, ou eu sou aquela guerreira que não estou nem aí pra ninguém e tá tudo bem, eu sou assim quem quiser que engula, ou eu consigo viver tranquilamente com a sociedade, então tem esse peso nas nossas costas.”
Para Sandra Liss, o padrão europeu está fortemente enraizado na sociedade de Cachoeira, padrão que influencia na desconstrução psicológica, social dessas mulheres pretas. “Cachoeira uma perspectiva bem europizante um olhar pra lá, pra o que é bonito, pra o que é padrão, padrão eurocentrado e percebo que isso é construído de forma tão com raiz que pra gente convencer nossa jovem ou até pra gente enquanto mulher preta já que veio passando pelo processo de desconstrução que não é fácil.”
Ela ainda diz que o preconceito de raça e gênero afeta brutalmente as mulheres pretas de Cachoeira, e que cobrança é reverberada sobre essas mulheres que têm sempre que mostrar a mais, a busca pela perfeição a exemplo disso.
“A prefeita de Cachoeira Eliana Gonzaga que, por ser mulher e preta, tem que mostrar dez mil vezes mais que o branco anterior”, completou Sandra Liss.
Padrão de beleza
Essa construção acaba colocando na mente dessas mulheres que a sua cor, seu físico e seu cabelo não são um padrão de beleza, como é definido para mulher branca. Liss traz para seu corpo um sentimento de incapaz a se relacionar com um homem que já teve um relacionamento com uma mulher branca.
“Eu sempre me questiono será que eu sou boa, suficiente para? E se minha concorrente, ou ela é branca, corrente quando eu falo é no sentido que se relacionou com o cara que eu vou me relacionar, se ela é branca ou tem a pele mais clara que a minha de uma certa forma me traz um incomodo e me traz um questionamento se eu sou boa suficiente para aquele homem”, disse Sandra Liss.
Esse pensamento se dá por meio do controle a qual o racismo constrói por meio da mente, a carência da mulher preta mostra que o amor não serve para elas e isso é tão fortemente implantado que os homens negros se relacionam com mulheres brancas com definições econômicas. Liss culpa a mídia por sustentar ainda mais esse padrão, a imagem da verdadeira beleza, enaltecendo a beleza da mulher de pele branca e de cabelos lisos definindo que essa é pra casar e construir família. “Um trabalho assim que fazem com a mente é articulado e muito articulado, muito mesmo, e vem todo com um trabalho com mídia, um trabalho visual, um trabalho de representatividade e tudo isso a gente sabe que conta e influência na mente da gente”, afirmou Sandra Liss.
Segundo ela, o conceito do belo é tão fortemente implantado que hoje a busca pelo amor afrocentrado se dá por meio da procura pela negra ideal, a menos preta. “Aquela preta estilo Tais Araújo, Camila Pitanga, que tem o cabelo cacheadinho, tem os traços voltado para Europa, ou que seja que tem uma mistura com indígena.”
A solidão das “mulheres” negras é uma realidade que machuca e que a cada dia deixa longe o sonho do celibato, os padrões de masculinidade fazem com quê a mulher negra não se sinta atraente. “Principalmente se ele for preta retinta com traços groide ela sempre é preterida“, afirmou Sandra Liss.
Mesmo sendo um racismo latente, a mídia trabalha de forma muito clara a qual padrão deve ser sustentado quando o assunto é afetividade, aquela ideia de quê uma imagem valem mais que mil palavras, ela se encaixa perfeitamente na formação mental das mulheres negras de não se acharem perfeitas para um relacionamento pois a imagem que é exposta é que a homens negros deve se relacionar com mulheres branca e mulheres pretas se envolver com homens branco, caso queira ser aceito pela sociedade. A imagem que se internalizada produz um sentimento de inferioridade.
“E essa construção perpassa pelas imagens, pelo o que assistimos, pelo consumimos enquanto imagem e áudio, enquanto mídia. O que a gente consome e a gente vai internalizando àquilo.”
Ainda sobre a construção a qual a mídia realiza, a coordenadora de educação diz que é preciso fazer um trabalho forte de construção sobre essa outra beleza a qual as pessoas não percebe, que é a beleza da mulher preta.
Sandra Liss disse que sabe o que é a solidão da mulher preta e que muitas vezes se submeteu a alguns relacionamentos para não se sentir sozinha”, eu sei bem o que é a solidão da mulher negra, eu sou uma mulher preta retinta e solteira, eu já tive alguns relacionamentos, hoje eu me vejo com outros olhos, eu sei hoje a potência que eu tenho, a potência que eu sou, hoje em dia eu já vejo minha beleza, mais eu até então já me submeti a relacionamentos pra não está sozinha, por que ninguém quer encarar a solidão, então eu me submeti a me relacionar com homens bem aquém de mim, quando eu digo aquém eu digo financeiramente, profissionalmente, intelectualmente inclusive na beleza”.
Segundo a coordenadora de educação. “A cor traz sim uma influência muito forte nas formas como a gente se relaciona inclusive no que a gente se submete, o que a gente aceita enquanto relação para não está sozinha, está muito relacionada a nossa cor”. Ela ainda fala sobre a importância de refletir para reconhecer o seu valor pois isso favorece na hora de escolher alguém.
“É interessante a gente falar e refletir sobre isso, coisa que eu venho fazendo muito nesses últimos dois anos, que a gente se olhe de verdade, poxa, eu sou incrível eu mereço uma pessoa incrível, eu sou maravilhosa, eu sou bonita eu mereça alguém que eu ache bonito, hoje em dia eu percebo essa minha potencialidade de ter uma pessoa que corresponda mais o que eu sou, mais antes não eu não tinha esse percepção”, disse.
Na visão de Sandra Liss, existe um movimento individual nas redes sociais que aborda a temática da carência, da solidão da mulher preta, afirmando também a importância de trazer essa temática por meio de vivências colocando pro seu próprio corpo . Mais que estudos podem contribui de forma a conhecer outros lugares, outras histórias como cada lugar se dá sobre esse racismo.

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