O uso de remédio pelo SUS e que custa R$ 150 nas farmácias aumentou no Brasil e na Bahia
Gabriel Silva
O estudante Rodrigo Mouroli, 23 anos, começou a tomar a profilaxia Pré-Exposição (PrEP) como estratégia de prevenção ao HIV há dois anos. Ele teve acesso à PrEP por meio de um parceiro casual. “Perguntei por que ele tomava, e ele me explicou. Fui atrás de um profissional e comecei a tomar também. Me sinto muito mais seguro, mesmo sem mudar meus hábitos sexuais”, contou o morador de Salvador, que tem acesso ao medicamento através do projeto Prepara, vinculado ao Sistema Único de Saúde (SUS).
Rodrigo é um dos cerca de 1,8 mil baianos em acompanhamento para uso da PrEP na capital. O número reflete a expansão do uso do método preventivo na Bahia. Segundo o Relatório de Monitoramento de Profilaxias de 2023, o estado registrou um crescimento de 82,1% na adesão à PrEP. Salvador concentra cerca da metade dos usuários do estado.
A PrEP é uma das estratégias mais eficazes de prevenção ao HIV, mas ainda é cercada por desinformação e preconceito. Criada para proteger pessoas em risco de exposição ao vírus, a PrEP pode reduzir em até 90% as chances de infecção quando utilizada corretamente.
SUS e farmácias

A PrEP é uma das estratégias mais eficazes de prevenção ao HIV. Foto: Gabriel Silva
A PrEP pode ser usada de forma contínua (diária) ou sob demanda (antes de relações sexuais de risco). Está disponível gratuitamente pelo SUS e também pode ser adquirida em farmácias pelo valor médio de R$150,00, sempre mediante prescrição médica.
De acordo com dados do Ministério da Saúde, o número de usuários da PrEP no Brasil mais que dobrou em 2023, saltando de 50 mil para mais de 107 mil pessoas. O perfil predominante desses usuários é de homens cisgêneros, gays ou bissexuais, entre 25 e 39 anos.
Algumas pessoas utilizam a PrEP fora do contexto sexual. É o caso do dentista William Cunha, 28 anos, que optou pela medicação como medida preventiva para possíveis acidentes com instrumentos perfurocortantes.
“Evito correr para o centro de referência e já me sinto protegido. Não quero depender da vontade de um paciente em aceitar fazer exames”, relatou William Cunha.
Ele também critica o estigma em torno do medicamento: “existe um pensamento arcaico de que a PrEP é um remédio para promiscuidade. Isso afasta muita gente”, criticou William Cunha.
Diferenças

Ilustração: Gabriel Silva
Muitas pessoas ainda confundem a PrEP com a PEP, o que contribui para a desinformação e uso inadequado. A PrEP é usada por pessoas que ainda não foram expostas ao vírus, mas que têm risco frequente de exposição. O objetivo é evitar que o HIV se instale no organismo.
Já a PEP (Profilaxia Pós-Exposição) é uma medida de urgência. Deve ser iniciada em até 72 horas após uma situação de risco, como relação sexual desprotegida com alguém que vive com HIV, rompimento de camisinha, violência sexual ou acidente com sangue contaminado. O tratamento dura 28 dias e também está disponível pelo SUS.
Ambos os métodos utilizam antirretrovirais, mas a indicação e o tempo de uso são distintos. A PrEP exige uso contínuo e acompanhamento regular, com exames de sangue a cada três meses. A PEP é um tratamento emergencial e pontual. Especialistas reforçam que entender essa diferença é essencial para evitar falsas expectativas e garantir eficácia na prevenção.
HIV e AIDS no Brasil e na Bahia
Apesar da ampliação do acesso à PrEP, os números da epidemia ainda preocupam. O Brasil notificou mais de 1 milhão de casos de HIV desde os anos 1980. Em 2023, foram registradas mais de 40 mil novas infecções. Dessas, a maioria ocorreu por transmissão sexual.
Segundo o Ministério da Saúde, o Brasil teve 10.338 mortes por AIDS em 2023. Cerca de 70% dessas mortes foram entre homens. A população negra é a mais afetada: 63% dos óbitos foram de pessoas pardas ou pretas. Jovens entre 20 e 34 anos são o grupo com maior taxa de novas infecções.
Na Bahia, o cenário segue a tendência nacional. Em 2023, foram registrados 2.128 casos de AIDS no estado, sendo 794 em Salvador. A capital responde por 37% dos casos baianos. Desde o início da epidemia, a Bahia já confirmou mais de 45 mil casos. Quase todos os municípios do estado notificaram pelo menos um caso da doença.
Entre os novos casos, a maioria é de homens cisgêneros. Em 2023, 64,5% das notificações foram desse grupo. A via sexual ainda é a principal forma de transmissão, representando mais de 75% dos casos. Especialistas alertam que o uso da PrEP poderia reverter essa curva se houvesse mais acesso, informação e adesão.
Origem da política pública
A PrEP foi incluída oficialmente na política pública brasileira em 2018. Naquele ano, o Ministério da Saúde passou a distribuir gratuitamente os comprimidos pelo SUS em centros de referência.
A decisão foi considerada pioneira na América Latina. O Brasil foi o primeiro país da região a oferecer o método como parte da estratégia nacional de prevenção combinada ao HIV. A medida teve base em estudos internacionais que demonstraram a eficácia da profilaxia.
A adesão, no entanto, demorou a decolar. Por falta de informação, preconceito e barreiras nos serviços de saúde, o acesso era limitado a grandes centros urbanos. Em 2022, o governo federal ampliou a distribuição e lançou campanhas educativas.
Além disso, iniciativas como o Prepara (na Bahia), o PrEP 1519 (voltado para jovens) e o ImPrEP (internacional) colaboraram para divulgar a PrEP em populações-chave, como homens que fazem sexo com homens, pessoas trans e profissionais do sexo. Essas ações ajudaram a expandir o alcance da política.
Preconceito e desinformação: desafio para a adesão
O médico urologista Adriano Silva reforça que a PrEP é para todos que estão em risco, não apenas para um grupo específico. “Precisamos falar sobre PrEP também para usuários de drogas injetáveis, mulheres cis e pessoas trans. É uma estratégia de saúde pública, não um produto de nicho.”
Segundo ele, o uso consciente da medicação exige acompanhamento médico e exames periódicos. Os efeitos colaterais mais comuns – enjoo, dor de cabeça e diarreia – geralmente desaparecem nos primeiros dias. “A adesão consciente faz toda a diferença”, afirmou Adriano Silva.
O psicólogo Diego Vasconcelos convida a refletir sobre o preconceito contra quem faz uso da PrEP. “Qual o melhor método de prevenção? Aquele que a pessoa consegue manter com boa adesão”, aponta. Segundo ele, embora a camisinha seja um método excelente, sua eficácia depende do uso correto e consistente, o que nem sempre é viável para todos.
A PrEP surge, então, como uma alternativa complementar, especialmente para quem tem dificuldade em manter o uso do preservativo. “Pessoas que usam PrEP são pessoas que querem mais prevenção. Seja quem já usa camisinha e quer reforço, seja quem não consegue usá-la sempre”, diz Diego.
Ele também rebate a ideia de que quem usa PrEP é promíscuo. “Pessoas em PrEP fazem exames regularmente, se testam para ISTs três ou quatro vezes por ano, tratam e curam essas doenças. Em alguns lugares como a Austrália, o aumento do uso da PrEP reduziu casos de sífilis, gonorreia e clamídia”, explica.
Diego lembra que o mesmo estigma surgiu com o uso do preservativo no passado. “Antes, quem usava camisinha era julgado. Hoje, vemos o mesmo acontecer com quem usa PrEP. Precisamos nos informar para que esse tipo de preconceito não se perpetue.”
Cultura e memória como aliados

O ator Jesuíta Barbosa como Ney Matogrosso em Homem com H. Foto: reprodução.
A história da luta contra o HIV e o preconceito em torno da doença também tem ganhado espaço na arte. O filme “Homem com H”, lançado em 2025, conta a trajetória do cantor Ney Matogrosso, que viveu a epidemia dos anos 1980 e viu seus amigos e companheiros serem levados pela doença. A produção revisita os traumas do período e destaca o impacto do HIV na cultura brasileira.
Além do cinema, exposições, peças de teatro e documentários têm recontado a história de quem viveu e morreu com HIV. Essas obras ajudam a romper o silêncio e a combater o estigma. A memória da epidemia é fundamental para lembrar os erros do passado e evitar que a negligência se repita.
Especialistas afirmam que a cultura tem um papel poderoso na educação em saúde. Quando artistas falam abertamente sobre HIV e prevenção, contribuem para a informação, a empatia e o fim do preconceito.
