Dados do Fundo de População das Nações Unidas (UNFPA) indicam que o país ocupa o 2º lugar no mundo em número de gestações precoces
Juliana Reis
Gravidez na adolescência causa muitos impactos na vida das mulheres. Foto: Reprodução/ pixabay
Mirele Silva Santos, hoje com 26 anos, é pescadora e moradora da comunidade quilombola de São Francisco do Paraguaçu. Engravidou aos 17 anos, pouco depois de terminar o ensino médio. Na época, sentiu muito medo: “Eu tinha sonhos, queria estudar mais, mas achava que não ia dar conta. Tive medo da responsabilidade de ser mãe, educar e criar um filho”. Apesar disso, seu companheiro foi compreensivo e as famílias deram apoio. No entanto, ela perdeu oportunidades acadêmicas e enfrentou dificuldades financeiras. “Se eu tivesse como voltar atrás, a gravidez seria em outra fase”, afirmou.

Mirele Silva Santos tinha sonhos de estudar mais, mas ficou grávida com 17 anos. Foto: Acervo pessoal
Já Raiane Silvano, 23 anos, também pescadora, engravidou aos 17 anos, mas teve uma experiência diferente. “Fiquei muito feliz. Não tive medo.” Mesmo com a surpresa inicial, sua família ofereceu apoio. Ela estava em um relacionamento estável, mas reconhece que passou por dificuldades físicas no pós-parto e que faltou orientação sobre prevenção.
A pescadora Raiane Silvano dos Santos engravidou aos 17 anos. Foto: Acervo pessoal
As estudantes fazem parte das estatísticas da gravidez na adolescência que, apesar da queda dos números, continua sendo uma preocupação de saúde pública no Brasil. Dados do Fundo de População das Nações Unidas (UNFPA) indicam que o país ocupa o 2º lugar no mundo em número de gestações precoces. Estima-se que mais de 400 mil adolescentes se tornam mães todos os anos. São cerca de 68,4 nascimentos a cada mil adolescentes entre 15 e 19 anos, número 50% superior à média mundial.
Embora os números tenham diminuído levemente, em 2020, 14% dos nascimentos no país foram de mães com até 19 anos. As regiões Norte (21,3%) e Nordeste (16,9%) concentram os maiores índices. O recorte racial também revela desigualdades: entre as adolescentes indígenas, 28,2% são mães. Entre as pardas, o índice é de 16,7%, e entre as pretas, 13%. Já entre as adolescentes brancas, o número cai para 9,2%.
Mudanças no perfil
Nos últimos anos, o perfil das famílias brasileiras mudou. As mulheres estão adiando a maternidade e tendo menos filhos. A média de filhos por mulher caiu de 2,32 em 2000 para 1,57 em 2023. A idade média para ter filhos subiu de 25,3 para 27,7 anos entre 2000 e 2020, com previsão de atingir 31,3 anos até 2070.
Atualmente, 39% dos bebês nascem de mães com 30 anos ou mais. Embora os nascimentos entre jovens de 20 a 24 anos ainda sejam significativos, essa faixa etária vem perdendo espaço com o passar do tempo.
Natali Conceição do Carmo Pereira, 26 anos, pescadora e moradora da comunidade de São Francisco, engravidou aos 20 anos, após ser aprovada para ingresso na universidade. “Foi uma descoberta tardia, um momento de quase depressão. Me senti insuficiente.” Apesar disso, recebeu apoio das famílias. Teve que conciliar estudos com os cuidados com o bebê, o que resultou na perda de oportunidades acadêmicas. “Se eu pudesse, engravidaria em outro momento. Mas meu filho foi a melhor coisa que me aconteceu”, afirma.
Natali do Carmo Pereira engravidou aos 20 anos, após ser aprovada para ingresso na universidade. Foto: Acervo pessoal
A gravidez precoce costuma mudar drasticamente a vida das adolescentes. Muitas precisam abandonar os estudos para cuidar dos filhos, o que compromete suas chances de inserção no mercado de trabalho. Medo, insegurança, culpa e conflitos familiares são comuns. Sem diálogo sobre sexualidade e prevenção, as jovens enfrentam dificuldades emocionais e materiais. O abandono por parte dos parceiros, também adolescentes, é outro fator recorrente. O apoio da família e da escola faz diferença nesse processo.
No posto de saúde da comunidade, a agente de saúde Neli Soares de Jesus compartilha como é o trabalho com adolescentes grávidas. Segundo ela, o acolhimento vai muito além da gestação. “Acolhemos com todo amor e carinho no atendimento. Sempre buscamos dar apoio e orientar de forma segura para uma gravidez saudável e tranquila”, afirma.
O trabalho começa no cuidado e se estende também à família da adolescente. “Acolhemos não só a grávida, mas também a mãe da gestante, para que juntas possamos fazer um acompanhamento com segurança e sucesso. E no final, um parto lindo e maravilhoso”, completa Neli.
Além do acompanhamento individual, o posto promove ações preventivas. “Sempre oferecemos palestras nas escolas, fazemos sala de espera para conversar e orientar sobre a prevenção”, destaca.
No entanto, o trabalho enfrenta barreiras. “As dificuldades que encontramos muitas das vezes são a falta de apoio familiar ou a vergonha de abordar o assunto entre pais e filhos. Muitos pais percebem que seus filhos já estão tendo uma vida sexual ativa, mas não orientam. Aí é onde acontece uma gravidez precoce”, explica a agente.
Para Neli, o apoio psicológico também faz parte do processo. “Estamos sempre em acolhimento e orientação, encaminhando as jovens que precisam de apoio psicológico e fazendo o acompanhamento necessário.”
A agente de saúde Neli Soares de Jesus chama atenção apra os cuidados e desafios no acompanhamento de adolescentes grávidas. Foto: Acervo pessoal
Durante anos de atuação no posto de saúde da comunidade, a enfermeira Queilla Taise de Santana Pereira vivenciou de perto os desafios enfrentados por adolescentes grávidas e suas famílias. Com acolhimento humanizado e estratégias de cuidado, o posto se tornou um espaço de escuta, apoio e orientação.
Segundo ela, o atendimento às adolescentes era feito de forma integral e acolhedora, com foco na saúde física, emocional e social. “Era crucial estabelecer um vínculo de confiança e respeito, garantindo privacidade e sigilo”, disse.
Uma das estratégias adotadas era a busca ativa por gestantes adolescentes, com visitas domiciliares feitas principalmente pelos agentes comunitários de saúde. “A ideia era identificar as jovens no primeiro trimestre da gestação e orientá-las sobre a importância do pré-natal”, explicou. Além disso, eram oferecidos atendimentos individualizados, com orientações sobre planejamento familiar e métodos contraceptivos, e incentivo ao envolvimento da família no processo.
Apesar do esforço da equipe, muitos desafios marcaram a atuação no território. A enfermeira destaca a falta de informação, a evasão escolar, o silêncio familiar e a escassez de recursos como obstáculos recorrentes. “Havia também uma dificuldade das próprias adolescentes em acessar os serviços. Muitas vezes se sentiam sozinhas, com medo ou inseguras”, disse.
Os relatos ouvidos nas consultas revelavam sentimentos de medo, insegurança, desespero e solidão — especialmente no momento da descoberta da gravidez. “Mas é importante lembrar que nem toda gravidez na adolescência era indesejada”, ressaltou.
Em casos em que havia necessidade, o posto encaminhava as adolescentes para atendimento psicológico ou para uma assistente social do município. Ainda assim, Queilla reconhece que nem todas aderiam às ações oferecidas, como palestras educativas e acesso aos métodos contraceptivos.
Ela reforça que os profissionais de enfermagem têm papel crucial nesse processo: “Atuamos na prevenção, no acompanhamento e na educação em saúde. A gente orientava sobre cuidados no pré-natal e saúde reprodutiva, e buscava garantir o apoio familiar”.
Embora não se recorde de uma situação específica marcante, Queilla lembra de uma mãe que se destacava entre as demais pelo apoio incondicional à filha adolescente. “Ela incentivava a menina a continuar estudando, mesmo grávida. Esse tipo de suporte faz toda a diferença”, concluiu.
O papel do enfermeiro na orientação de adolescentes
Queilla Taise de Santana Pereira atuou no posto de saúde da comunidade e acompanhou de perto os desafios enfrentados por adolescentes grávidas. Foto: Acervo pessoal
Inicialmente, gostaria de iniciar minha fala agradecendo pelo convite e parabenizando a discente Juliana pela iniciativa de abordar uma temática tão sensível e, ao mesmo tempo, extremamente relevante para a nossa comunidade. É um assunto pelo qual tenho grande apreço, especialmente por já ter tido a oportunidade de trabalhar com essa temática durante a minha graduação.
O profissional enfermeiro exerce um papel essencial na orientação de adolescentes quanto à sexualidade, contribuindo significativamente para a promoção da saúde e o desenvolvimento saudável dos jovens. Essa orientação pode ser realizada por meio de diversas estratégias, como o acolhimento qualificado nas unidades de saúde do território, com a construção de vínculo a partir de uma escuta ativa, respeitosa e empática. É nesse espaço que o adolescente deve se sentir seguro para expressar suas dúvidas, sentimentos e vivências relacionadas à sexualidade.
A orientação deve incluir informações claras e acessíveis sobre o planejamento reprodutivo, promovendo o exercício da sexualidade de forma segura e responsável. Isso envolve a explicação detalhada sobre os diversos métodos contraceptivos disponíveis no Sistema Único de Saúde (SUS), bem como seu uso correto, indicações, contra indicações e possíveis efeitos colaterais.
Além disso, é fundamental que o enfermeiro atue de forma intersetorial, estabelecendo parcerias com lideranças escolares, associações comunitárias e demais atores locais. Essa articulação fortalece a rede de proteção e o suporte ao desenvolvimento integral dos adolescentes. Através de ações como palestras, rodas de conversa e oficinas educativas, é possível abordar temas fundamentais, como puberdade, métodos contraceptivos, infecções sexualmente transmissíveis (ISTs), autoestima, relacionamentos saudáveis e prevenção da gravidez na adolescência.
Dessa forma, o enfermeiro contribui de maneira efetiva para a formação de jovens mais conscientes, empoderados e preparados para tomar decisões responsáveis sobre sua saúde sexual e reprodutiva.
Laisa Silva Santos
Enfermeira, graduada pela Universidade Estadual de Feira de Santana (UEFS). Especialista em cardiologia pela Universidade Federal do Recôncavo da Bahia (UFRB). Atualmente mestranda do Programa de Saúde da População Negra e Indígena da Universidade Federal do Recôncavo da Bahia (UFRB).
