Como os protocolos do amar revolucionam a era do deslizar, implicando em uma boa experiência – ou não – nos aplicativos de relacionamentos
Tales Loureiro
Com o crescimento exponencial do uso de aplicativos como Tinder, Bumble, Grindr, Happn no período pós-pandêmico por diferentes faixas etárias, surgiram novas formas de encontrar o “par perfeito”. Vivemos hoje a era do swipe, termo que, em tradução livre, significa “deslizar/arrastar”, uma vez que para dar match ou não, necessita desta ação. O que se percebe nesses novos espaços de socialização digital é que os aplicativos (apps) começaram a fomentar novos protocolos para as pessoas que pretendem dar um “match”.
Essas plataformas de relacionamento começaram a chegar ao Brasil no ano de 2012. O primeiro aplicativo desse tipo a ser lançado em território nacional foi o Tinder, plataforma que ainda hoje é a mais acessada no país. Conforme o último balanço feito pela consultoria Sensor Tower, no terceiro trimestre de 2024, havia 4,1 milhões de usuários ativos no país. O número é menor, em comparação aos 5,4 milhões de usuários do primeiro trimestre de 2022, mas ainda é expressivo, representando 5,1% de toda a comunidade mundial da plataforma. Outros, como o Bumble, se destacam pela iniciativa feminina nas conversas.
Um casal apaixonado. Foto: Freepik
O Happn utiliza como mecanismo para o match a geolocalização dos seus usuários, com um foco em conexões mais naturais. Já o Grindr é mais focado na comunidade gay. O Umatch, por sua vez, é exclusivo para universitários e permite conectar estudantes de diferentes faculdades.
O fluxo de interação entre pessoas nos aplicativos de relacionamento costuma seguir um roteiro informal, mas amplamente repetido: o match acontece, inicia-se uma breve interação e, rapidamente, há uma migração para outras plataformas de comunicação, como WhatsApp, Instagram, Twitter ou Telegram. Esse movimento reflete tanto mudanças comportamentais quanto estratégias de aproximação mais pessoais e dinâmicas.
Do match ao direct: migração das conversas dos apps de namoro para redes sociais
Esta reportagem traz os relatos de quatro mulheres que estão em atividade no Tinder.Foto: Good Faces Agency/Montagem: Kris Gaiato
Essa migração acaba trazendo benefícios como a validação da identidade e, como o Instagram é um portfólio pessoal, dá para saber se ambos têm amigos em comum. A conversa nestas redes sociais facilita também uma conversa mais fluída, com a possibilidade do envio de áudio, localização, fazer chamadas.
Mas, como sabemos, para entrar em aplicativos de relacionamento, é exigido ser maior de 18 anos. Traçando um pequeno perfil, esta reportagem traz os relatos de quatro mulheres que estão em atividade no Tinder. Gabriela Muccillo, 21 anos, estudante e natural de Salvador, entrou no aplicativo em 2020, mas não permanece de forma consecutiva. Bruna Santana, 20, estudante e natural de Salvador, entrou em março de 2025 e utiliza de forma casual. Mariana Luz, 19, estudante e natural de Salvador, baixou junto de um grupo de amigas em outubro de 2024 e utiliza por puro tédio. Natália Costa, 18, natural de Salvador e terminou o ensino médio e está estudando para o vestibular, começou a usar o aplicativo em fevereiro de 2025.
Entre o match e o medo: o receio das mulheres nos apps de relacionamento
O receio das mulheres em conversar ou marcar encontros com pessoas conhecidas por aplicativos de relacionamento ainda é uma realidade constante, mesmo diante da popularização dessas plataformas. O medo de violência, golpes emocionais ou financeiros, e a possibilidade de exposição ou assédio contribuem para um clima de insegurança que afeta diretamente a liberdade dessas usuárias. Muitas relatam adotar estratégias de autoproteção, como marcar encontros em locais públicos e compartilhar localização com os amigos, revelando como a busca por conexões afetivas pode se tornar um processo tenso e cauteloso.
Dada esta circunstância, tem o caso de Gabriela Muccillo, que afirma ser bem seletiva nestes casos e que utiliza de uma certa “malandragem” para não cair em uma furada. Além disso, é comum que certas mulheres tenham uma aversão aos “dates” casuais que são sugeridos de forma brusca, preferem conversar por dias, e a partir disso decidem aceitar sair ou não.
Natália Costa trouxe também a questão de que muitos match’s não conseguem desenvolver uma linha de conversa, e só ficam no automático. Ela ainda acrescenta que uma das coisas que mais a chamam atenção é a prática de esportes. Tirando Bruna Santana, que não é muito da prática de esportes, as outras três praticam esportes ativamente e vão à academia.
A “Running Era” e o amor na pista: correndo atrás do match ideal
As pessoas, além de usarem aplicativos de relacionamento, também têm garimpado amores de outras formas, sejam elas vendo o perfil no Instagram ou, até mesmo, durante atividades. Com a chegada da Running Era – em tradução livre “Momento das corridas”, ficou comum ver maratonas, festivais de corrida de pessoas que se dispõem a correr 21km em busca de seus amores.
O surgimento deste movimento se dá pela mudança no pensamento da sociedade. Em uma era multipolar, ficou comum o sedentarismo, ainda mais após a pandemia, em que o termo “home office” se tornou mais presente na realidade mundial. Em 2023, a Câmara dos Deputados trouxe que o aumento do sedentarismo foi um dos impactos da pandemia de Covid-19 no Brasil, conforme especialistas ouvidos pela Comissão do Esporte da Câmara dos Deputados. Os debatedores reforçaram que a educação física deveria ser considerada política de saúde, pois é essencial na prevenção de doenças físicas e psicológicas.
Mas, como controversa à ideia do sedentarismo, na pandemia, milhares de pessoas utilizam suas redes sociais para divulgar suas rotinas saudáveis e surgiu a ideia de ser viral com o lifestyle – tendo como tradução estilo de vida.
Em meio à popularização da chamada Running Era — onde correr se tornou mais que uma atividade física e passou a representar um estilo de vida focado em saúde, bem-estar e pertencimento — surgiu uma nova tendência: encontrar o par romântico ideal nas pistas de corrida. A prática, antes solitária ou voltada ao desempenho, passa a ser vista como espaço de socialização e conexões afetivas, especialmente entre jovens adultos que veem na corrida uma forma autêntica de conhecer pessoas com os mesmos valores e rotinas.
Dados da Associação Brasileira de Corridas de Rua (ABCR), São Silvestre e Ticket Sports mostram que o interesse por esse esporte realmente aumentou no Brasil. Em 2023, foram realizadas 150 mil corridas de rua e houve um acréscimo de 13% no número de participantes em relação ao ano anterior. A estimativa é que existam 13 milhões de corredores no país atualmente.
Correndo atrás do amor: quando o date vira treino
A tendência ganhou força com iniciativas como o “Tinder Solemates Challenge”, lançado pelo aplicativo de relacionamentos para promover encontros entre pessoas que amam correr. Com a ajuda do Strava – é um app de monitoramento de exercícios físicos com características de redes sociais – a proposta ficou simples: usuários interessados adicionavam a tag “Solemate” aos seus perfis do aplicativo de relacionamento, permitindo que o aplicativo conectasse corredores com interesses em comum. A campanha ilustra uma mudança no comportamento amoroso contemporâneo: mais do que match’s digitais, busca-se afinidade real, e os quilômetros compartilhados podem ser o início de uma conexão duradoura — dentro e fora das pistas.
Esse evento marcou não só o início formal dos “dates funcionais”, mas também reforçou o poder do networking (rede de contatos profissionais de uma pessoa) nos aplicativos com interação pessoal.
Nutricionista Nathalia Geromel fez um vídeo abordando os símbolos que aparecem nas corridas. Divulgação: @nageromeil.nutri
Amor em movimento: como os “dates funcionais” e os esportes em dupla estão reinventando os encontros românticos
Os “dates funcionais” já são bastante presentes entre o público brasileiro. Sendo, encontros amorosos ou afetivos que, além da intenção de conhecer melhor a outra pessoa, envolvem atividades práticas do cotidiano. Tem se tornado comum ver casais na praia, seja nadando, correndo, fazendo funcional ou até mesmo jogando a popular altinha.
A união do afeto com a praticidade traz encontros que também servem para resolver tarefas ou desenvolver hábitos em conjunto. No caso do esporte, isso se traduz em autocuidado compartilhado — algo cada vez mais valorizado. Além disso, essa convivência ativa revela traços importantes de personalidade: resiliência, incentivo mútuo, cuidado e até senso de humor nas adversidades.
Mas, com a aparição do desafio no Strava — aplicativo de monitoramento de exercícios físicos com características de redes sociais — novos símbolos estão se destacando na sociedade, como o uso de meias azuis em maratonas que se tornou um código informal para indicar que o corredor está solteiro e disponível para conhecer pessoas novas, especialmente durante eventos e treinos. O uso de meias pretas, por outro lado, significa que a pessoa está em um relacionamento.
Muito antes da aparição destes símbolos, outros já estavam presentes na sociedade. Como o uso do abacaxi invertido, ou um balanço com fundo vermelho, ou um Ás de espadas, que ambos são comuns em casais com práticas liberais, o famoso swing. Vindos do modismo europeu e norte-americano, estes símbolos antes eram presentes em janelas, quadros ou portas, mas hoje são vistos em tatuagens ou pingentes.
O jornal O Globo fez uma reportagem, no dia 20 de janeiro de 2025, sobre este assunto e trouxe Clotilde Perez — professora de semiótica da Escola de Comunicações e Artes da USP — que afirma ter sentido esta adesão dado “a sexualidade se alimentar da fantasia”, tornando agradável o uso de um código que poucos irão entender o significado. Assim, ela ainda reforça que “Quanto mais velado, mais sedutor. E, por se tratar de figuras e não palavras, esses símbolos ficam ainda mais potentes, já que atravessam os idiomas”.
A familiaridade com esse códigos não é tão comum. Ao apresentar esta ideia à Gabriela Muccillo, por exemplo, ela afirma que desconhecia estes símbolos e que agora ficaria mais atenta, uma vez que, eles estão cada vez mais presentes na sociedade. Como ressaltou a professora Clotilde Perez, estes símbolos foram feitos para os adeptos, independentemente da nacionalidade, se identificarem, e mostra também que os símbolos estão presentes no dia-a-dia, só bastam as pessoas perceberem.
Mariana Luz, disse que desconhecia também e que ficou ciente na entrevista para matéria, ainda afirmou que se o pai fosse solteiro, iria adorar estes símbolos associados ao esporte. No vídeo da nutricionista Nathalia Geromel (vídeo acima), postado no Tik Tok, os símbolos que aparecem nas corridas têm o mesmo sentido. No fim das contas, a era das corridas não é apenas sobre performance física, mas sobre a busca por conexões reais em tempos superficiais.
Estas novas formas de encontrar o par perfeito revelam um desejo por encontros que façam sentido, que acompanhem o ritmo da vida como ela é. Se antes o amor era garimpado em telas ou dando swipes, hoje ele também pode ser descoberto entre um quilômetro e outro, onde afinidade se mede em passos e cumplicidade se constrói no fôlego dividido. Nos novos métodos afetivos, o par ideal não se encontra apenas e sim compartilha momentos ou então compartilham de desejos ocultos.
LEIA MAIS NO REVERSO ON LINE:
A utilização de aplicativos de relacionamento – Reverso Online




