Indústria cultural promove hipersexualização do homem negro        

Mitos racistas ainda aparecem em narrativas sobre diversos produtos culturais, como filmes, músicas, novelas, anúncios publicitários

Igor Cordeiro de Santiago

 Lucas Amorim é um jovem publicitário de 23 anos, nascido em Cachoeira no Recôncavo Baiano. O jovem relata já ter vivenciado situações em que já foi hiper sexualizado durante a fase da adolescência e que mesmo estando na fase adulta esse tipo de situação não deixou de existir. Ele traz o ponto de vista de que muitos homens negros acabam considerando a vida amorosa como parte de uma militância e que o fato de se relacionarem e namorarem com mulheres brancas faz com que se sintam iguais aos brancos.

No mundo da publicidade os homens negros normalmente são chamados na maioria das vezes para fazer propagandas de peças intimas, sex shop e roupas esportivas. Essa característica, destaca Lucas Amorim, remete ao fato de que, por muitos anos, foi vista como única vantagem para os afrodescendentes a questão sexual. Dessa forma, o indivíduo acaba sendo associado às performances dos filmes eróticos, não sendo amados como homens por inteiro e sim como objeto de prazer e fetichização.

“É uma ideia extremamente racista e que infelizmente ainda é bastante fomentada por diversos produtos culturais, como filmes, músicas, novelas, anúncios publicitários, e outros. Entender isso é compreender também a necessidade de consumir produtos de criadores negros e negras, que geralmente têm mais sensibilidade ao apresentar personagens negros em suas obras”, disse o publicitário.

    O publicitário Lucas Amorim destacou sobre a hipersexualização do homem negro no mercado publicitario. Fotografia: Acervo pessoal

Saúde mental

Em sua avaliação, é uma visão que, além de racista e de péssimo gosto, influencia diretamente na saúde mental de diversos homens negros, que absorvem esse ideal como algo positivo, e muitas vezes se decepcionam por não alcançar as expectativas que lhe são impostas.

“Eu já passei por várias situações em que fui hipersexualizado e isso já aconteceu comigo desde a adolescência, de ouvir algumas piadinhas na escola, a respeito do tamanho do órgão genital e coisas do tipo. Hoje, na fase adulta, continuam acontecendo, mas com menos frequência talvez pelo fato de eu ser uma pessoa mais fechada”, contou Amorim.

O radialista Washington Neem destacou  a respeito da fetichização interracial dos casais brancos. Fotografia: Acervo pessoal

Outro que vivenciou situações semelhantes foi o radialista cachoeirano Washington Neem, 46 anos. Ele acredita que a atitude de casais brancos que buscam aventuras sexuais através da fetichização interracial tem muito a ver com a ideia de que o homem negro e a mulher negra têm muita virilidade, aí é a compreensão de que o povo negro também é mais forte em todos os sentidos sexuais.

São os mitos: partindo do pensamento da mulher branca, que o homem negro tem seu membro sexual maior, portanto, a satisfaz mais; e de que, sendo um homem branco, a mulher negra tem a bunda grande, seios fartos e, portanto, leite materno mais saudável. Assim como são vistas como mais sexies para seu apetite sexual.

“Eu não sei dizer se as situações que eu vivenciei foram de fato casos de hipersexualização, já me aconteceu de mulheres se envolverem comigo por terem uma preferência maior por homens negros ao invés de homens brancos, mas nunca me aconteceu de pessoas se envolverem comigo somente pela questão sexual, nas minhas relações sempre houve um envolvimento maior que foi além do sexo”, afirmou Neem.