“Nem os que tão em casa estão se cuidando, imagine quem mora na rua”, afirma dependente químico em Cachoeira
Desinformação e negligência preocupam autoridades e potencializam casos de infecções sexualmente transmissíveis (ISTs) por pessoas com vulnerabilidade na cidade heroica
Gabriel Grave
“Nem os que tão em casa estão se cuidando, imagine quem mora na rua.” É o que afirmou Marco Antônio, 39 anos, cachoeirano que lida com a dependência de álcool, sobre a fragilidade dos dependentes químicos na “cidade heroica”. Ele possui residência, mas diz preferir estar na rua. Ele relata que tem relações sexuais toda semana e usa camisinha regularmente, sendo por isso motivo de chacota e brincadeira pelos amigos.
“Eu tenho um medo retado de pegar essas doenças aí, mas também não deixo de dar minha ‘furadinha’. Nunca fiz exame, mas se eu fizer, sei que não vai dar nada, porque eu só vou de camisinha. Meus amigos ‘tudo’ têm doença, menos eu. Vi muita gente definhar e morrer, não quero isso pra mim, não. Eles ficam tirando onda com a minha cara, mas aí ó, tudo bichado, tudo cheio de doença”, disse Marco Antônio.
Em levantamento foi feito por esta reportagem na cidade de Cachoeira, no bairro Jardim Grande, onde se concentra um grande número de pessoas em condição de rua e vulnerabilidade social constatou-se que, em um grupo de 20 pessoas, 16 dos entrevistados eram homens, e, entre esses, somente Marcus se protegia sexualmente, por vontade própria. Já as mulheres, mesmo estando em menor número entre os entrevistados (4), apresentaram uma busca maior por proteção e informação.
Levantamento feito pela equipe de reportagem do Reverso
A falta de recursos básicos, o preconceito e a dependência química são alguns dos fatores que dificultam o acesso à informação. Além do baixo uso de preservativos, a maioria do grupo demonstrava desinteresse e ausência de iniciativa para a realização de testes e exames voltados à detecção e ao tratamento de infecções sexualmente transmissíveis (ISTs), mesmo tendo algum conhecimento sobre a existência dessas doenças.
Alcoolismo
O alcoolismo era a condição mais recorrente entre os entrevistados, estando presente também durante a prática sexual, frequentemente associado ao uso de outras drogas. Alguns indivíduos compartilhavam bebidas e cigarros, bebendo todos no “gargalo”, e, por falta de informação, acreditavam estar seguros, com a justificativa de que “AIDS só se pega pelo sexo”.
Por garantia à privacidade dos entrevistados, todos os nomes nesta reportagem foram alterados e os áudios utilizados foram devidamente autorizados por eles.
Um homem que participava da entrevista fez um relato que demonstra a falta de compreensão dessas doenças.
Ouça o áudio seu Oscar:
A professora aposentada Ana Cláudia, 64 anos, conta que fica ao longo do dia nas ruas, mas volta para casa durante a madrugada somente para dormir. Ela levanta algumas questões e dá uma sugestão: “Eu acho que seja vergonha e preguiça. Às vezes o pessoal do posto, os enfermeiros, vêm pra conversar e tudo, mas eles ‘nem tchum’, aí tem é que chamar a assistência social, pegar na mão e levar, porque se for esperar ele mesmo ir, vai ficar esperando, porque ele não vai”.
Ouça o áudio de Ana Cláudia:
Quando perguntada se já realizou algum teste ou já frequentou algum posto médico, Ana Cláudia entra em contradição, afirmando que é “perda de tempo” ter cuidados desse tipo.
Todos os participantes masculinos apontaram que fazem uso dos serviços das profissionais do sexo locais, e que o único momento em que utilizam camisinha é quando estão com elas, sendo essa uma norma nesses lugares. As profissionais, aliás, demonstram outra perspectiva sobre o assunto, o tratando com seriedade e rigor:
“Toda semana fazemos teste rápido, os agentes de saúde vêm aqui, distribuem camisinha, nós vai no ginecologista, se tiver qualquer coisa tem que ficar boa primeiro, se não, não trabalha”, disse Bianca, 23 anos, profissional do sexo há 5 anos, sendo 2 deles na cidade heroica.
Dados coletados referente a cidade de Cachoeira, Bahia.
Prevenção e cuidados
O SAE (Serviço de Assistência Especializado em Infecções Sexualmente Transmissíveis) surgiu em 2014 com o objetivo de oferecer um atendimento mais qualificado, humanizado e abrangente para pessoas que convivem e se expõem às infecções sexualmente transmissíveis. Ele é localizado na Policlínica de Cachoeira e abrange as regiões de Conceição da Feira, Maragogipe e São Félix. Atualmente, é coordenado pela enfermeira Taíse SOBRENOME, com apoio da infectologista Iza Lobo.
Mesa de prevenção do SAE em Cachoeira. Foto: Rodrigo/arquivo pessoal
Entre os serviços oferecidos pelo SAE estão a realização de tratamentos e diagnósticos em parceria com os postos de saúde, a entrega de kits de proteção, a distribuição de PrEP (profilaxia Pré-Exposição) e PEP (Profilaxia Pós-Exposição), além da divulgação de folders educativos e da promoção de rodas de conversa por toda a cidade, em especial locais com maior exposição e concentração de pessoas em situação de vulnerabilidade, como o Jardim Grande.
A coordenadora Taíse SOBRENOME explica a importância de atuar diretamente nesses territórios:
“Sabemos que existem barreiras que impossibilitam que essas pessoas venham até a gente, por isso vamos até elas. Infelizmente, a maioria apresenta desinteresse, eles só se interessam no kit pois vendem as camisinhas e os lubrificantes”, disse a coordenadora do SAE.
Campanha do SAE em parceria com a unidade móvel de Cachoeira. Foto: Rodrigo/arquivo pessoal.
Taíse relata uma situação onde os agentes de saúde estavam em atuação pelo SAE no Jardim Grande e duas mulheres os abordaram, perguntando se os agentes não iam contactar elas e entregar o kit, o que evidencia ainda mais uma busca por cuidados por parte do público feminino.
O último grande trabalho realizado foi o módulo de testagem durante os festejos juninos, e o próximo será realizado neste mês de julho, declarado como o mês de combate às hepatites.
O que se observa é que os serviços do SAE têm pouca difusão. Alguns pacientes chegam ao SAE por conta própria, já diagnosticados ou com suspeitas, muitas vezes vindos de cidades vizinhas, buscando tratamento no município devido os tabus em torno desse tipo de condição clínica e ao medo de julgamentos nas cidades onde residem.
Por outro lado, muitos moradores de Cachoeira desconhecem a existência desse atendimento. Muitas pessoas vêem as ações acontecendo nas ruas, mas não imaginam que são realizadas pelo SAE, nem que o serviço é oferecido a todos os públicos.
As ações do SAE ocorrem regularmente, assim como os serviços oferecidos em todos os postos de saúde de Cachoeira. Neles, também são disponibilizados testes rápidos para HIV, sífilis e hepatites B e C, além de exames preventivos ginecológicos, preservativos e anticoncepcionais, tanto orais quanto injetáveis.
SERVIÇO
ONDE: Policlínica de Cachoeira (Dr. Albérico Dias)
HORÁRIOS DE ATENDIMENTO: Segunda a quinta-feira, das 8h às 16h, e sextas, das 7h às 14h.
PÚBLICO ATENDIDO: O serviço atende pacientes de todas as idades com diagnóstico de ISTs, HIV ou hepatites virais encaminhados por unidades de saúde ou outros municípios, e também acolhe usuários que buscam testagem, insumos de prevenção, consultas ou informações por demanda espontânea.