Orgasmo Feminino…“Você já chegou lá?” 

Os tabus que envolvem o ápice do prazer feminino atrapalham a vida sexual de mulheres

Camila da Silva de Souza e Emerson Gesteira 

“O sexo é visto pelos homens, muitas vezes, como uma atividade de dominação. Então, eles estão ali contando com quantas mulheres eles dormiram, o que ele fez, o que ele deixou de fazer e muitas vezes, quase sempre, nessas narrativas não têm espaço para o que essas mulheres sentiram em relação aquilo que eles fizeram.” É o que afirma a socióloga especializada em gênero e raça, Júlia Abdalla, que traduz o que a maioria das mulheres enfrentam quando o assunto é sexo. Enquanto os homens conseguem ser agradados e alcançam o prazer, às mulheres nem sequer são perguntadas sobre o que sentem.

Esse é um assunto que vem sendo abordado há tempos – pela ciência e também pelo jornalismo – e parece não ter chegado ainda a um consenso. O orgasmo, assim como outras questões do universo feminino, tornou-se um tabu ao longo da história, exemplo disso, é a mutilação de órgãos genitais a que mulheres de determinados países são submetidas.

De acordo com uma pesquisa realizada pela Organização das Nações Unidas (ONU) em 2019, cerca de 200 milhões de meninas e mulheres vivem essa realidade. Países da África e do Oriente Médio são os que mais concentram casos, no entanto, a prática é registrada também em alguns lugares da América Latina e da Ásia. 

Costumes

O ato da mutilação consiste na remoção total ou parcial do clitóris – órgão que é ligado exclusivamente ao prazer – e dos lábios vaginais. Os povos praticantes são movidos pela vontade de preservar a mulher virgem, tornando-a disponível para o casamento e ampliando o prazer dos homens. Esses costumes deixam evidente que a censura em torno do orgasmo feminino é ancestral e existe em todo canto do mundo.  

Além disso, o desconhecimento sobre o assunto torna o debate ainda mais sensível. A questão envolve fatores sócio históricos de vestígios do patriarcado, reflexo direto de uma sociedade que, durante séculos, silenciou o corpo feminino. 

Entre os principais fatores que apontam essa diferença estão a dificuldade de comunicação com o parceiro e a falta de autoconhecimento do próprio corpo, questões que são cada vez mais comuns no cotidiano das relações entre homens e mulheres. Esse hábito, naturalizado e enraizado pela cultura machista e misógina, torna cada vez mais frequentes a dificuldade de mulheres em atingir o tão desejado orgasmo, se tornando um desafio na hora do prazer.

Uma reportagem publicada pelo portal G1 em agosto de 2024, mostra que 95% dos homens heterossexuais disseram que geralmente ou sempre têm um orgasmo em uma relação sexual, enquanto apenas 65% das mulheres heterossexuais afirmam o mesmo. Esse fenômeno é conhecido como “lacuna (ou gap) do orgasmo” — nome dado à diferença na frequência de orgasmos entre homens e mulheres —, documentada na literatura científica há mais de 20 anos.

Os dados indicam ainda que as mulheres têm muito mais orgasmos sozinhas do que com seus parceiros. Pelo menos 92% das mulheres têm orgasmos durante a masturbação ou alguma outra prática sexual que não demande a presença masculina. Na pesquisa, elas relataram ainda ter mais orgasmos quando fazem sexo dentro de relacionamentos estáveis em comparação com o sexo casual. 

Comunicação

A falta de comunicação com o parceiro é resultado de uma construção social. Ter um diálogo assertivo, aberto e corajoso sobre o que as agrada não proporciona para o casal uma vida sexual prazerosa para ambos.

Durante o desenvolvimento na vida da mulher, é ensinado que numa relação heterossexual o homem é quem tem a necessidade de ser satisfeito, deixando de lado o prazer feminino no ato sexual. Esse é um dos fatores que contribuem para que as elas não consigam conversar abertamente com os seus parceiros sobre o quê e onde, de fato, sentem prazer, causando mitos como “homem tem que adivinhar” ou “mulher que fala muito é vulgar”.

Segundo a enfermeira ginecológica Janaira Souza, é necessário a mulher dialogar sem receios com o parceiro.

“O que eu falo sempre a elas no consultório é que conversem primeiramente com seu parceiro e também tenham esse autoconhecimento do próprio corpo”, disse a enfermeira ginecológica Janaira Souza.

No entanto, para além da mulher falar o que pensa ou sente, é necessário também que o parceiro entenda e reflita sobre o que os pontos relatados. Assim, juntos eles podem encontrar uma comunicação mais assertiva, em que o corpo feminino, que  caracteriza-se como singular, seja entendido e consiga alcançar o prazer. 

Autoconhecimento

Outro fator que dificulta o “chegar lá” para a mulher é a falta de conhecimento do próprio corpo. A masturbação é geralmente a ferramenta que a auxilia conhecer quais pontos são mais excitantes em seu corpo e como estimulá-lo, sobretudo  para que a comunicação com o seu parceiro seja mais efetiva e direta. Deixar evidenciado sobre em quais lugares e como gosta de ser tocada, por exemplo, pode ajudar a chegar ao tão sonhado orgasmo. 

Segundo especialistas em saúde feminina, questões relacionadas à saúde mental também podem atrapalhar alcançar o ápice do prazer. A enfermeira ginecológica Janaíra Souza afirma que o prazer feminino é uma questão  de saúde, destacando que “fatores como estresse, ansiedade, depressão e até mesmo medicamentos,  podem inibir a sensação de prazer dessas mulheres”. 

O tabu em torno do orgasmo é uma espécie de  silenciamento na dimensão social e histórica, na qual as mulheres por vezes foram e são educadas para satisfazer os prazeres dos homens. Ainda que se sintam intimidadas e, por vezes, não conheçam seus corpos, algumas praticam a masturbação para alcançar o orgasmo. Essa prática auxilia no autoconhecimento, facilitando alcançá-lo. 

A socióloga Júlia Abdalla destaca alguns pontos subjetivos que fortalecem os tabus que foram criados ao longo do tempo sobre este assunto. 

“As nossas posições sociais já mudaram bastante, mas a nossa mentalidade demora muito mais para mudar, porque estamos lidando com esse espaço da família, amigos próximos, das crenças que as pessoas têm e que são muito mais difíceis de serem lidadas”, explicou a socióloga Júlia Abdalla.

A educação patriarcal enraizada na sociedade ensina a mulher a adotar um papel de submissão. Quebrar esse ciclo de censura e limitação é um desafio para elas. E, como consequência, é desencadeado o silenciamento na hora do prazer. 

Devido ao silenciamento das vozes femininas, as mulheres sentem dificuldade de falar sobre o que lhes agrada – sobretudo, na hora do sexo. Na maioria das vezes os homens não se importam, e tudo se torna uma comunicação falha e perigosa. Isso porque a falta de prazer feminino nas relações podem desencadear insatisfações pessoais e com seu parceiro. Tal condição colabora na elevação do número de mulheres inseguras e suscetíveis a aceitar qualquer forma de ser tocada e de prazer, que nesses casos não se aflora.

Padrões

O padrão de comportamento atribuído para a mulher foi registrado pelos jornais ao longo do tempo. Um exemplo do século XIX está no livro “Imprensa Feminina e Feminista no Brasil”, da autora Constância Lima Duarte, destaca-se um trecho do jornal Brasileira Patriota:

“Não há dúvida, que a mulher de bom gênio, formosa, bem feita e bem educada, é a mais importante preciosidade que existe sobre a terra; a natureza a dispôs para encantar ao homem (…). E tudo é bonito na mulher bem formada; desde os pés até a cabeça tudo são obras perfeitas, tudo são atrativos para cativar o homem de bom gosto. E que diremos de uma cintura estreita, onde se vê esticada uma fita, que reúne todas as curvas”. (Autoria desconhecida, 1849, p. 1)

Constância Lima Duarte (à esquerda) e a capa do livro “Imprensa Feminina e Feminista no Brasil (à direita). Fotos: divulgação

Observa-se que, além do patriarcado, existia e ainda existe vestígios da predominância do “estilo de mulher ideal” aos olhos da sociedade, configurado pelo rosto e corpo, circunstância que influencia diretamente na autoconfiança da mulher no momento do prazer, dado que a confiança em si mesma auxilia a mulher na boa relação com seu corpo e também com o parceiro. 

Racismo estrutural no prazer

Para a  estudante de jornalismo Lícia Mendes o espaço da universidade foi um local que auxiliou no seu autoconhecimento como mulher, ao participar de debates que enriqueceram seu repertório. 

“O ambiente da universidade é muito importante nesse desenvolvimento pessoal, pude me inteirar sobre assuntos, conhecer conceitos”, disse Lícia Mendes.

Além disso, a jovem relata ter sofrido racismo estrutural quando o assunto é prazer. Tal preconceito racial, enraizado no setor sócio-histórico, se perpetua por vezes de forma invisível ou normalizado. “Eu tive uma disciplina na faculdade que discutiu o tema de relações interraciais e me fez perceber como o racismo estrutural também está envolvido nas nossas relações e em como a gente lida e se relaciona, e na forma como recebemos ou damos afeto e percebi que também já fui muito vítima desses relacionamentos”, relatou Lícia. 

Desmistificando tabus

Com novos espaços de discussão, a pauta do orgasmo feminino vem sendo cada vez mais debatida. O assunto ganhou lugar nas redes sociais e está sendo discutido por especialistas que incentivam as mulheres a buscarem o autoconhecimento e utilizarem da sua voz para ganharem espaços na hora do prazer.

A utilização de vibradores, por exemplo, virou uma prática comum entre mulheres que se utilizam do equipamento para chegar ao prazer sozinhas ou, até mesmo, com seus parceiros. O mercado tem investido em vários modelos de vibradores, como o clitoriano, o de sucção de clitóris, tradicional, o vibrador com rotação e penetração, de ponto G, de controle remoto. 

Cartazes do filme “De Pernas pro Ar”. Montagem: Canva

O assunto é também tema de produções culturais. A trilogia “De pernas pro ar” (Globo Filmes), uma comédia romântica protagonizada pela atriz Ingrid Guimarães, por exemplo, reúne longas que tratam a forma como a sexualidade feminina e a dificuldade do alcance do prazer acontece na vida das mulheres. Ingrid, que deu vida a personagem ‘Alice’, mergulhou no tema, após ser demitida do emprego e se separar do marido.

A personagem, que nunca tinha tido um orgasmo, busca o equilíbrio em sua vida profissional, na maternidade e com seu parceiro após o autoconhecimento e utilização de apetrechos sexuais na masturbação. Logo após perceber que existe uma forma de conseguir o prazer e tudo que ele proporciona, Alice funda uma empresa de produtos sexuais com o intuito de oferecer a mesma experiência que ela teve a outras mulheres e mostrar os benefícios do orgasmo.

Fonte: IA. Montagem: Canva

Mulheres defendem busca do autoprazer – Reverso Online