Prostituição, sexo e tradição: memórias das antiga Cachoeira

Historiadores Cacau Nascimento e Gleysa Teixeira Siqueira, autora do livro “Uma história de Cabeluda: mãe, mulher e cafetina”, relembram histórias da vida noturna da cidade

João Carneiro

*Publicado em dezembro de 2022 e atualizado em junho de2025

Falar de prostituição em Cachoeira é ir além de desconstruir a imagem que por muito tempo caminha ao lado do estereótipo do imoral e do indecente. Um antônimo aos comportamentos e valores tradicionais cultuados por boa parte da população cachoeirana. É revisitar o passado, ressuscitar memórias e vivências da histeria de uma cidade durante os seus períodos mais áureos.

Embora a cidade ainda tenha apenas o clássico cabaré de Renildes Alcântara dos Santos, que ficou conhecida como “Dona Cabeluda” – ou “Cabeludinha”, como também costumam chamar – como um dos sobreviventes, o cenário era completamente diferente há muitos anos… As histórias, às vezes silenciadas por diversos motivos, escondem parte de uma Cachoeira apimentada, composta por lugares que, na época, eram a personificação do “fruto proibido”.

A rua do Porto, que liga o fim da Praça Góes Calmon com a Rua Sete de Setembro, abriga as ruínas do Hotel Colombo, o antigo terminal hidroviário de Cachoeira – que deu lugar a um restaurante, o espaço de festas conhecido como “Escombro 777”, o píer da cidade e também o brega de Dona Cabeluda. Hoje, a rua é um espaço tranquilo, com alguns picos de movimentação. Pela manhã é calmaria, assim como a tarde – exceto durante as épocas de festa. Entretanto, o que muitos não sabem é que essa parte localizada no “fim de Cachoeira” já foi uma das apimentadas da cidade. 

As memórias de uma Cachoeira ardente serão relembradas pelo professor, antropólogo e historiador cachoeirano Cacau Nascimento, que expõe o cenário da cidade durante os períodos áureos, assim como as suas observações e vivências como parte, também, da cidade. Mestre em Estudos Étnicos e Africanos pela UFBA, o pesquisador é uma fonte de informação sobre a cidade heroica.

“Uma menina de família era proibida de frequentar a Zona do Porto”, lembrou Cacau Nascimento.

Era uma quarta-feira ensolarada, e calorenta – como de costume em Cachoeira. Encontrei com o historiador Luiz Cláudio Nascimento, conhecido como Cacau Nascimento, no Arquivo Municipal de Cachoeira, localizado um pouco mais acima da ladeira da Câmara e Cadeia. Conversamos sobre os casarões da cidade em situação de arruinamento, além dos processos e memórias desses estabelecimentos.  

Conversa vai, conversa vem, Nascimento cita a questão das prostitutas na cidade, e a partir daí, o bate-papo que estava chegando ao fim, se inicia mais uma vez.

Zona do porto

O historiador conta que a zona do porto da cidade era conhecida por abrigar vândalos, mendigos, capoeiristas, canoeiros, feirantes e é claro, as prostitutas. Sob um olhar do contexto histórico e conservador da época, Nascimento ressalta que essa parcela da população era taxada como a “escória da sociedade”. Ou seja, eram pessoas que, aos olhares da burguesia, não tinham valor social e, portanto, não eram vistas como cidadãos. 

As prostitutas que trabalhavam em Cachoeira eram meninas que vinham do Sertão, e geralmente tinham histórias em comum: perdiam a virgindade cedo, e eram expulsas de casa pelos pais. Na época, as meninas só poderiam ter relações sexuais depois do casamento – algo bastante influenciado pelo comportamento cristão-conservador existente até hoje, que aponta o sexo antes do casamento como um pecado, uma violação dos bons costumes e dos preceitos de uma cidadã de bem.

Por conta do ocorrido, as meninas, ainda jovens, vinham para Cachoeira, que vivenciava um período de vislumbre econômico, e usavam da prostituição como uma forma de garantir a sua sobrevivência e o seu sustento. Algo que não deixa de ser contemporâneo, mesmo descrevendo um caso antigo. 

Pandemia da Covid-19

Durante a pandemia da Covid-19, muitas mulheres tiveram que entrar no mercado da prostituição para que pudessem sobreviver diante do tamanho prejuízo causado pela propagação do vírus, atrelado à um governo responsável por mais de 680 mil mortes em decorrência da doença além de acentuar as desigualdades já existentes no país.

“Além das meninas que vinham do Sertão, existiam também as que vinham do Circo. Quando chegava o circo, desciam umas cinco, seis, sete mulheres…”, disse o historiador.

Questionado sobre os frequentadores da parte “boêmia” da cidade, Cacau Nascimento conta que, muito além da população que já ocupava a zona do porto, havia também a presença de médicos, professores, advogados, pais de família e dentre outros que se encaixam na estrutura de burguesia da cidade. Muito além dos estereótipos utilizados para fazer com que as moças de família não frequentassem a tal região, há também o desvio da conduta moral da época – do homem que deveria honrar a família acima de tudo.

Ouvindo os relatos de Cacau Nascimento, em uma das salas do Arquivo Municipal de Cachoeira, perguntei sobre o perfil das mulheres que atuavam no ramo da prostituição na cidade. O historiador conta que a maioria eram jovens entre 17 e 20 anos de idade, e que sempre andavam bem arrumadas. 

Historiador Cacau Nascimento é um das fontes sobre a história da cidade heroica. Foto: Divulgação.

Ele também conta que os homens, geralmente, procuravam os serviços das prostitutas para que pudessem fazer coisas que geralmente não costumavam fazer com suas mulheres devido ao respeito que tinham por elas, como a exploração das fantasias sexuais.

Os jovens da época eram introduzidos a vida sexual a partir desses espaços. Cacau Nascimento conta que os pais geralmente davam uma quantia a um responsável, que levava o jovem aos cabarés para que pudessem ser iniciados. Um comportamento presente ainda hoje em uma sociedade que, infelizmente, acredita que para um adolescente se tornar um homem de verdade, precisa ter experiências sexuais.

Todavia, em Cachoeira, havia também um ritual que marcava a transição do adolescente para a vida adulta: atravessar o Rio Paraguaçu de Cachoeira até São Félix, nadando, sem parar para descansar, e depois retornar. Ou seja, o jovem tinha que atravessar uma largura de 365 metros duas vezes. 

“Se você conseguisse essa maratona, você era considerado homem. E os pais geralmente costumavam esperar na beira. Se você não conseguisse, eles pegavam você pela orelha e davam uma surra […] outros não voltavam. Morria muita gente afogada. Muita gente, mesmo”, recordou Cacau Nascimento.

Nascimento também conta que existiam casos onde os clientes se apaixonavam pelas prostitutas, prometendo um futuro melhor para as jovens mulheres aliado à jura de que seriam tiradas da vida em que estavam inseridas. 

No decorrer de seus relatos, Cacau Nascimento conta que chegou a conhecer mulheres que foram retiradas do mundo da prostituição pelo seus futuros maridos, e que passaram pelo árduo processo de serem reinseridas numa sociedade que, até então, a excluía.

Dona “Cabeluda”

Seguindo o embalo da conversa, Nascimento relembra que chegou a participar de um trabalho feito por Gleysa Teixeira Siqueira, egressa da Universidade Federal do Recôncavo da Bahia (UFRB), que produziu um livro em 2017 à respeito da história de Dona Cabeluda, resgatando suas memórias, e, também, experiências diante de um estabelecimento que há décadas faz parte da cultura da cidade.

A personagem e a escritora em encontro na época do lançamento do livro. Foto: Divulgação/Bahia Notícias

Me encontrei com Gleysa em um dos dias da Feira Literária de Cachoeira – FLICA. Como estava muito ocupada com o lançamento de seu livro em um dos locais da Feira. Conversamos brevemente sobre os conteúdos. Entusiasmada, ela me contou sobre o quão importante este livro é, não só para ela, ou para Dona Cabeluda, mas também para a cidade cachoeirana de modo geral.  Logo após, trocamos nossos números e conversamos ainda mais sobre o livro e suas experiências.

Gleysa conta que a ideia de escrever um livro teve início ainda na graduação. Formada em história pela Universidade Federal do Recôncavo da Bahia (UFRB), a egressa explica que a proposta chegou até suas mãos através de uma sugestão feita pelo seu orientador, o professor Augusto Liberac, que já sabia da vontade da aluna em trabalhar com a história local, envolvendo mulheres que eram subalternizadas ou pertenciam a classe trabalhadora.

Livro que conta a história essa personalidade da cidade de Cachoeira foi tema de TCC. Foto: Reprodução da capa

“Eu consegui chegar até Cabeluda através de um filho dela de criação, o Danoso, que é também um amigo de infância. A gente se conhece, ele é conterrâneo meu daqui de Cachoeira”, contou a historiadora.

A autora do livro também conta que durante o processo de produção, conheceu histórias que lhe marcaram profundamente. Histórias essas que atravessam um período de tempo: a primeira, com o pseudônimo de Carla, atua como prostituta para sustentar a sua família, que mora fora de Cachoeira. A segunda, é a história de “Dona Zefa”, uma senhora de idade que também atuou no mercado da prostituição ainda nova. 

“Eu defendi meu TCC em 2017, no dia cinco de julho. A defesa foi no próprio brega de Cabeluda. A partir daí, eu comecei  a ser sondada por várias editoras para que pudesse publicar em formato de livro. Eu me segurei um pouco na época por algumas questões pessoais. Eu não estava muito bem na época”, relembrou a autora.

Gleysa ressalta que o livro só foi publicado cinco anos depois, ou seja, neste ano. E que apesar do longo tempo, as editoras continuaram lhe sondando e insistindo na publicação do livro. Ela explica que contou sobre a ideia da publicação para as pessoas que participaram do livro – inclusive a própria Cabeluda, e que foi muito apoiada. 

Mas nem tudo são flores. Gleysa conta que, na época, havia um grupo de pessoas que não ficaram contentes com a publicação, chegando a acusar a obra de “irrelevante”, pois abordava a história de uma prostituta. Já outros, chegavam a contornar o real objetivo da obra, deduzindo que a dissertação, que posteriormente se tornou um livro, fazia “apologia à prostituição”.

“É uma visão totalmente deturpada, preconceituosa. Essas mulheres são dignas de terem suas histórias contadas. São pessoas, seres humanos, trabalhadoras igual a nós. Quando eu ouvi, fiquei um pouco triste, mas depois percebi que isso vinha de pessoas moralistas, que não sabiam sobre a importância desse assunto”, complementou.

A historiadora também complementa que recebeu autorização de todas as pessoas para que o livro fosse publicado, desde as entrevistas mais suaves, até as mais polêmicas. O livro escrito por Gleysa Teixeira Siqueira é o primeiro que fala sobre a prostituição na cidade de Cachoeira. A autora não esconde a gratidão, e costuma falar sobre o projeto com entusiasmo.

“Esse é o primeiro livro que fala sobre algo que existe na cidade desde o processo de colonização, né? Ali por volta do século XVII e principalmente no século XVIII onde Cachoeira foi o principal entreposto comercial, que fazia ligação com a Baía de Todos os Santos, com Salvador”, explicou Geysa Teixeira.

Dona Cabeluda morreu no dia 6 de maio de 2024 e virou notícia em vários veículos de comunicação do Brasil.

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