Mesa "Ser Poesia" com Roseana Murray, Edma de Góis e Lívia Natália.

“Ser Poesia” reúne autoras e celebra a potência da palavra e do afeto

Mesa discute o papel da poesia como instrumento de sobrevivência

Martina Tomazini

Mesa "Ser Poesia" com Roseana Murray, Edma de Góis e Lívia Natália.
Mesa “Ser Poesia” com Roseana Murray, Edma de Góis e Lívia Natália. Foto por Martina Tomazini

Nesta sexta-feira (24), a Tenda Paraguaçu sediou a mesa “Ser Poesia”, que reuniu duas grandes autoras da literatura brasileira: Roseana Murray e Lívia Natália, com mediação de Edma de Góis. O encontro foi marcado por reflexões sobre a poesia como forma de promover a transformação de diferentes contextos, além de debates sobre as mudanças no mundo literário e os desafios contemporâneos da escrita.

Roseana Murray, nascida no Rio de Janeiro, é autora de poesia e contos para crianças, jovens e adultos, e integra a Lista de Honra do Organismo Internacional I.B.B.Y., que reconhece os melhores escritores da literatura infantojuvenil mundial. Lívia Natália, natural de Salvador, é poeta, professora e doutora em Teoria e Crítica da Literatura e da Cultura pela Universidade Federal da Bahia (UFBA). A mediadora Edma de Góis é jornalista, mestre e pós-doutora em Literatura pela Universidade de Brasília (UnB).

Apresentadas por Tarsilla Alvarindo e recebidas com aplausos, as autoras deram início à conversa relembrando trajetórias e o encontro com a poesia. Roseana contou como escrever para o público infantil despertou encantamento ao levar palavras às escolas e crianças de diferentes lugares. Lívia compartilhou sobre o processo de início à escrita ainda jovem, transformou as dores em versos guardados em “cadernos de poesia”. A poesia é uma forma de sobrevivência, um espaço para dizer o que, em contextos difíceis, não pode ser verbalizado.

O título da mesa “Ser Poesia” reflete o pensamento das escritoras, que entendem a poesia como estado de espírito. Questionadas por Edma sobre como escrever poesia em um mundo distópico, Lívia citou o livro “Em faces dos últimos acontecimentos”, que reúne textos de reflexões sobre episódios de violência, racismo estrutural e acontecimentos de injustiça. Inspirada pela fala da colega, Roseana leu um poema que reflete o sentimento de aprisionamento vivido durante o isolamento social. 

Edma levantou a discussão sobre as dificuldades de criar poesia no cenário atual, e Roseana trouxe que “O que a gente faz é tornar possível a utopia, nem que seja pela poesia, porque não é possível viver sem utopia”. A autora também compartilhou a experiência que deu origem ao livro “O braço mágico”, escrito após o acidente em que perdeu o braço direito, obra que hoje proporciona visibilidade e esperança por meio da literatura, especialmente para as crianças.

Ao falar sobre afetos, Lívia destacou o processo de autoconhecimento e reconstrução emocional presente em “Eu mereço ser amada” (2015) e “Dia bonito pra chover” (2017), livros em que explora o amor, as dores e as diferentes formas de se relacionar. Além de contar a repercussão de obras na vida dos leitores, ressaltou a importância do diálogo da poesia com a vida cotidiana.

Na parte final do debate, a conversa abordou as transformações na produção literária e o impacto da inteligência artificial na produção literária, a qual Roseana disse não se adequar ao mundo da poesia. Enquanto Lívia defendeu a democratização do acesso à literatura, que a internet pode proporcionar: “Quanto mais pessoas lendo e produzindo literatura, melhor”, pontuou. Embora tenha relatado experiências negativas com a inteligência artificial, com textos falsamente atribuídos a seu nome.

Ao abrir para perguntas do público, as autoras falaram sobre as dificuldades do mercado editorial, especialmente para a publicação de poesia, porém incentivou as pessoas a escrever e utilizar o meio da educação para isso. Lívia conta que nunca pagou para publicar um livro, porém ressalta que é um privilégio e reafirma a fala de Roseana de que o mercado é complicado e limitante, inclusive com barreiras de gênero e raciais. Edma ressaltou a importância das coletâneas como caminho para novos autores.

O encontro foi encerrado com a leitura de poemas: Roseana declamou versos de “Balaio de felicidades”, e Lívia finalizou com um texto de “Dia bonito pra chover”, sobre a ausência e o poder da palavra poética que resiste, mesmo em tempos difíceis.