A saúde mental na universidade e seus desafios

Por: Amanda Brito, Deise Almeida, Milena Gualberto e Yuri Ferreira

Uma universidade pública recebe hoje pessoas de diversos lugares, com diferentes personalidades e marcante diversidade cultural. Ao contrário da escola, no ensino médio, a universidade é um ambiente que, não necessariamente, exige que as pessoas estejam dentro da sala de aula para que frequentem o local. Não há muitas regras em relação à ocupação das áreas externas à salas nos horários de aula, mas todos estão sujeitos ao convívio comum, e cada um reage à sua maneira. As experiências vividas em outros espaços – fora do ambiente universitário – contribui para a formação de ideias dos indivíduos imersos neste lugar.

As reações individuais demonstram muito a respeito da saúde mental de cada indivíduo e do ambiente em que ele está inserido. Muitos universitários evidenciam ‘comportamentos incomuns’ que dizem muito a respeito de um desequilíbrio emocional, e, como afirma alguns entrevistados ao longo dessa reportagem, a rotina universitária é um dos fatores causadores desse processo.

No Centro de Artes, Humanidades e Letras (CAHL), da Universidade Federal do Recôncavo da Bahia (UFRB), é corriqueiro o trancamento de disciplinas ou, em alguns casos, a desistência de algum componente acadêmico. Entre os dias 27 de junho e 27 de julho, lançamos um questionário para identificar o número de evasão dos estudantes do CAHL causados por problemas de saúde mental. De mais de três mil alunos que estudam no centro, apenas 85 responderam à pesquisa. 54,1% destes já trancaram alguma disciplina, 22,4% desistiram de disciplinas, 4,7% trancaram o curso e 2,4% chegaram a abandonar a graduação. Mesmo sendo miníma a quantidade de pessoas que responderam ao questionário, são porcentagens expressivas de evasão em um espaço de aprendizagem e troca de conhecimentos.

Esses são comportamentos considerados incomuns, demonstrando haver algum problema afetando as pessoas que tiveram essas atitudes. No CAHL, alguns cursos são diurnos (matutinos e vespertinos) outros noturnos; os estudantes tem que dedicar grande parte do seu tempo à rotina excessiva exigida pela universidade.

Sintomas de que algo não vai bem

Beatriz Goulart (Bia), 24 anos, é uma estudante de Comunicação Social – Jornalismo que trancou o curso por está com a sua saúde mental abalada para dar continuidade. “Percebi quando comecei a procurar válvulas de escape. Nunca gostei de café e, de repente, eu estava virando noites com uma garrafa de café ao lado. Passei a viver ansiosa. Um dia eu estava no CAHL, sentei no chão e comecei a chorar. Olhava para tudo aquilo e me sentia desesperada. Tinha medo de não dar conta, tinha medo de ficar lá e, ao mesmo tempo, tinha medo de ir para casa. Nesse dia percebi que não estava bem.”. Bia, assim como 4,7% dos entrevistados, trancou o curso, se afastando totalmente do espaço universitário.

Ao ser questionada sobre o porquê de ter tomado essa atitude, ela explica que a universidade foi causadora dessa decisão, mas, para além disso, os problemas pessoais também influenciaram no trancamento do curso. “Precisei me afastar pra pôr a cabeça em ordem. Mas não foi só a faculdade que me levou a tomar essa decisão. Acabou que misturou tudo; a faculdade e os problemas particulares. O emocional não tinha condições de continuar. Hoje estou muito bem”.

Muito além de se afastar das rotinas acadêmicas, existem algumas características e sintomas que são indicadores de que uma pessoa possa está com sua saúde mental abalada. Distúrbio do sono ou sono desregulado, apetite alterado, rotina alterada, perda de vontade nas atividades do cotidiano, perda de interesse sexual, dificuldade de lidar e enfrentar problemas, sensibilidade emocional e isolamento social são sintomas apresentados por um indivíduo com a saúde mental comprometida.

Rocheane é uma psicóloga que atua na cidade de Cachoeira-BA e atende estudantes do CAHL. Atualmente, ela está atendendo três estudantes que a procuraram por apresentar os sintomas descritos acima. “As queixas mais frequentes com estas pacientes são ligadas aos sintomas que desencadearam os transtornos mentais que elas têm. Lá no início sentiram os sintomas de saúde mental abalada ou comprometida, e hoje estou tratando em terapia com elas, como a depressão, ansiedade, baixa autoestima, psicoses, transtorno bipolar, transtorno de personalidade borderline e transtorno obsessivo-compulsivo (TOC).”

Muitos estudantes da UFRB não sabem, mas nos sete centros existentes, têm psicólogos à disposição para atender as demandas referentes à saúde de cada indivíduo matriculado na instituição. No CAHL, o psicólogo responsável por atender os estudantes é Leandro dos Reis. Os alunos que precisam do atendimento devem se encaminhar para o prédio Ana Nery, nas terças ou quintas-feiras, para marcar um horário com o profissional.

Causas e providências

Professores rígidos que intimidam; cobrança desmedida por desempenho; trabalhos em grupo; afastamento familiar pela mudança de cidade ou estado para estudar e as relações pessoais e interpessoais construídas a partir do ingresso ao curso são situações que podem afetar os universitários de maneira bastante intensa ao adentrar e conviver no espaço universitário.

Apesar da importância, a saúde mental ainda não tem atenção necessária no país. Segundo dados de 2016 divulgados pelo Simers (Sindicato Médico do Rio Grande do Sul), as doenças e transtornos mentais afetam mais de 400 milhões de pessoas em todo o mundo. E, entre os anos de 2010 e 2016, os números de leitos psiquiátricos oferecidos pelo SUS teve uma queda de 32,9% no Brasil. Além disso, entre 76 e 85% das pessoas com problemas de saúde mental no país não recebem o tratamento ideal.

A universidade, por meio dos professores, técnicos e até mesmo os colegas, pode ser um espaço sensível a esses sintomas que um universitário deixa transparecer. Uma vez percebido os sinais, a abordagem deve ser particular feita com delicadeza, explicando ao indivíduo quem deve-se procurar para que o problema seja resolvido.

Se você reconhece que apresenta alguns dos sintomas de saúde mental comprometida, informados nessa reportagem, procure a ajuda de um psicólogo. Caso seja estudante do CAHL, procure o psicólogo do Centro Leandro dos Reis – (75) 3425-2138, o atendimento é gratuito. Caso não seja universitário, ou seja, mas de outra instituição, busque o psicólogo mais próximo de você.

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A seguir, depoimentos de alunos que vivenciam o dia a dia da da universidade e as dificuldades enfrentadas por eles próprios ou por muitos dos seus colegas.

Michelle Lopes, 22 anos, BIS (Bacharelado Interdisciplinar em Saúde), Centro de Ciências da Saúde (CCS)

Michelle Lopes, 22 anos, Bacharelado Interdisciplinar em Saúde (BIS), Centro de Ciências da Saúde (CCS)

“Eu diria pra pessoa primeiro se organizar na universidade, ver se realmente é esse curso que ela quer e procurar uma ajuda psicológica, porque geralmente a gente pensa em desistir da universidade justamente por não estar bem psicologicamente, e a universidade faz a gente piorar bastante”.

Jacilene Barbosa, 48 anos, Enfermagem, Centro de Ciências da Saúde (CCS)

“Eu, ao mesmo tempo que concordo [em não abandonar o curso], sinto a mesma vontade de abandonar, tenho dúvidas porque o futuro já é tão incerto com a formação acadêmica que, presumo, proporciona maiores chances de estar no mercado de trabalho e ganhar um salário melhorzinho. Fico refletindo se vale tão a pena estar nesse processo tão cruel que nos submete a sofrimento psíquico a todo instante. Então, eu fico sem resposta para mim e muito menos para os outros. Mas, se eu obedecesse minha vontade de forma pura e simples, sem deixar influências externas interferirem nesse processo, abandonaria agora, neste instante, imediatamente”.
Romário do Nascimento, 22 anos, Bacharelado em Ciências Sociais, Centro de Artes, Humanidades e Letras (CAHL) 
“Eu diria muita coisa, mas a depender da situação, procuraria um acompanhamento psicológico, porque existe diversas questões ainda mais no curso da área de humanidades”.
Tatiane Laís, 20 anos, Bacharelado em Ciências e Tecnologia, Centro de Exatas e Tecnológicas (CETEC) 
“Não ficar pensando negativo, não dar ouvidos quando as pessoas falarem que não vai conseguir. Não desistir das matérias e se caso reprovar, tentar novamente”.

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